O que é ser Budista ?

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Pode haver em alguma altura da nossa vida, que sentimos algum tipo de fascínio pelo Budismo. Seja pela atitude demonstrada pelos seus seguidores, pelos seus rituais, ou a maneira os budistas seguem o seu caminho, tanto na vida, como na sua relação com os outros, e claro, pelos grandes e milenares ensinamentos do iluminado Siddhartha Gautama ( Buda ). E artigo não pretende ser um guia fácil para se ser Budista. Pretende é dar clareza e coerência ao que é na sua essência, ser Budista e por consequente, ser seguidor desta maravilhosa filosofia de vida, que nos preenche, nos faz melhores indivíduos e de uma enorme entrega ao mundo e na pratica do bem.
Buda ensinou que qualquer tipo de sofrimento por si, advém de algum tipo de desejo, seja ele vindo de dentro de nós mesmos ou das pessoas que nos rodeiam. Se formos a raciocinar sobre isto, veremos que de facto, este pensamento é verdadeiro. Quando é que já aconteceu as pessoas quererem tanto um objecto, não obterem e depois ficarem tristes ? Quererem ganhar tanto o Euromilhões, e gastam dinheiro em apostas, e nada conseguem, ficando ainda piores no seu estado de alma ? São exemplos do dia-a-dia, mas reflectem de forma fiel a sociedade moderna. 
A maioria das pessoas não tem o discernimento para aceitar a realidade e acreditam, que apesar de irem a uma igreja, culto ou templo e ouvir ensinamentos de bem, que mesmo não os aplicando, que tudo se resolverá. Como se apenas a presença em algo espiritual sem a ligação devida fosse de facto a solução para todos os males. O facto de ter força de vontade para ler este artigo e estas humildes palavras, pode significar algo. Que o Budismo pode ser de facto, não a solução, ou meio fácil de seguir ou obter algo, mas quem sabe o veículo para uma mudança positiva na sua vida. Pode parecer estranho comentar ou dizer as pessoas que somos seguidores do Budismo. Afinal, Portugal é um país de ensinamentos Cristãos, muito longe do Nepal ou do Tibete, e que apesar de haver um aumento relevante da presença Budista em Portugal, seja em pequenos templos, centros ou núcleos, a verdade é que os ensinamentos não estão acessíveis a todos, seja por falta de informação, falta de outros tipo de meios, ou o aproveitamento financeiro de alguns ditos “iluminados” sem o serem. Tal como não é o hábito que faz o monge, não é alterando toda a sua casa ou quarto para parecer um qualquer tipo de mini-templo que irá fazer mais de si, um Budista. E não leve a mal, não quero ofender ao afirmar o que afirmei. A verdadeira crença advém não de objectos, mas de atitudes, de gestos, da prática do bem. Vem da energia positiva que deixamos fluir em nós. Vem da generosidade que temos com outros, sem ter a expectativa de ter algo de volta. É isso mesmo, dar sem querer retorno. Ter o espírito livre, solto e com luz. É ajudar e tratar todos da mesma forma, não praticar o mal propositadamente, não estar dependente de pessoas, situações ou objectos, mas sim ter uma mente livre do desapego, pois o desapego é o caminho para nos sentirmos menos pressionados. O dia-a-dia desta sociedade formatada, das imposições, pressões, levam a maioria das pessoas a deprimirem-se, a refugiarem-se em vícios, a tomarem medicamentos que desvirtuam a mente, e que façam que se tornem fantoches e não pessoas no sentido real do termo. O Budismo não é um caminho “fácil” de se obter o que esperamos. Tudo na vida, tem o seu trabalho, a sua dedicação, a sua fidelidade aos princípios, um compromisso positivo para uma vida de bem, de actos de luz , de um abraçar a tudo aquilo que faz de nós, únicos, de uma determinada perspectiva, não desvalorizando os restantes, porque todos temos dentro de nós o potencial que necessitamos para sermos aquilo que quisermos. É nisso que acredito. É isso que defendo. Defendo com força e uma crença inabaláveis, com o sentido que o rio segue até desaguar no mar, sendo esse sentido a minha força de vontade, o rio o caminho insidioso que se vai tornado um pouco menos duro devido a evolução individual, sendo o mar, o estado de consciência superior que todos um dia queremos atingir. Mais uma vez, os passos que irei enumerar, não fazem de si um Budista. Mas dão algum conhecimento sobre o que é ser seguidor na sua essência, apesar de sabermos que não há nenhum guia “descomplicador” ou “facilitador” para atingirmos aquilo que queremos ser ou seguir.
 
Passo 1
 
Ler muito sobre o Siddhartha Gautama, ( Buda ) o “iluminado”, o pai do Budismo.  Há várias citações a deambularem pela Internet, mas ler e interpretar os textos sagrados em si, as suas questões, conclusões, explicações são de um valor inestimável. Tentar meter-se nos pés de Buda, do seu longo caminho e no sentido em que ele queria ir. Sem nunca esquecer quem é, e de que é sua vontade fazer o seu próprio caminho de luz. Alcançar o significado das palavras, sentir a grandiosidade dos actos, irá proporcionar um sentido apurado e uma crença forte no significado de cada palavra, frase ou texto.
 
Passo 2
 
Englobar em si o significado das quatro nobres verdades que são:
Vida significa sofrimento
A origem do sofrimento é o apego
A cessação do sofrimento é atingível
O caminho para a cessação do sofrimento é o desapego
 
Passo 3
 
Mentalizar e apreender o Nobre Caminho Óctuplo:
Sabedoria
Compreensão correta
Pensamento correto
Conduta Ética
Fala correta
Acção correta
Meio de vida correto
Desenvolvimento Mental
Esforço correto
Atenção correta
Concentração correta
 
Passo 4
 
Dukkha. A Primeira Nobre Verdade. Algo que faz é uma das essências do universo, causado pela impermanência e pela inexistência de um “eu” permanente e imutável no que concerne à composição do universo. Se há algo que Buda deixou como ensinamento, é de que nós iremos passar pelo denominado ciclo de vida, que iremos passar por momentos menos positivos, que não dão qualquer tipo de satisfação e que nos poderá inclusive trazer sofrimento a nossa vida. A maneira como lidamos com esse tipo de momentos, revelara muito de nós. 
 
Passo 5
 
Sentir os seus ensinamentos na plenitude. É importante saber a relevância das 4 Nobres Verdades e do Caminho Óctuplo, mas saber que os ensinamentos não estão apenas limitados a isso. Que há muito mais para aprender, absorver e cultivar. Se ler é conhecimento, apreender conhecimento puro do Budismo é sem dúvida plantar mais conhecimento verdadeiro, espiritual e iluminado em nós. E tudo o que nos ilumina o ser, faz de nós seres de energia e luz, que espalha essa magia por onde quer que passe.
 
 
Passo 6
 
 
Dar a conhecer ao seu interior o poder da Meditação. A Meditação liberta a nossa mente de todas as preocupações, ajudar a focar no actual momento, na importância do instante em que estamos de modo a podermos alcançar sem qualquer tipo de problemas a paz interior que necessitamos enquanto pessoas. E não esquecer que nem todos meditam de maneira igual, cada um atinge a sua paz da sua própria forma. E que o importante é estabelecer uma rotina de modo a termos um espaço e um tempo apropriadamente para essa importante acção.
 
 
Passo 7
 
Entender o que é Karma e Samsara ( Reencarnação ) . Compreender que o Karma é o que faz compreender o sentido das nossas acções. Se determinada acção é positiva, negativa ou neutra. Ao produzirmos Karma, os seres de luz que somos, ficam aprisionados num círculo quase que vicioso, chamado de samsara ( ciclo de reencarnações : Nascimento, Sofrimento, Morte e Renascimento). Parafraseando um ensinamento negativo para melhor entender: “Para todo o evento que ocorre, seguirá um outro evento cuja existência foi causa pelo primeiro, e este segundo evento poderá ser agradável ou desagradável se a sua causa foi caridosa ou benéfica. E ao compreendermos isto, compreendemos que o ciclo de reencarnações ( samsara ), esse estado de sofrimento meio confuso e não muito esclarecido, tem de ser evitado. Só quando atingirmos um estado de paz total e incondicional, é que “fintamos” o Samsara, atingindo o Nirvana, o estado de libertação de todo o sofrimento que possuímos. Nunca confundir o Nirvana, a “libertação”, com o Bodhi. O Bodhi é o estado de despertar de clareza e de espírito. É estar em completa sintonia e consonância com o universo que nos rodeia, proporcionando uma interacção completa, e fazendo ascender a uma consciência elevadíssima e uma magnifica luz sem precedentes.
 
 
Passo 8
 
 
Analisar verdadeiramente qual dos caminhos do Budismo que acha que se identifica mais e seguir esse caminho. Seja  o Budismo Theradava, Mahayana e Vajrayana. E o que nos revela cada uma dessas vertentes ?
 

Budismo Theravada

 
É a Escola mais antiga, sendo que Theravada significa isso mesmo “Doutrina dos Sábios”, como que a dar o o cunho da importância e relevância que tem devido à sua antiguidade. Tanto que os seus textos anda são em pali, o idioma original. O Budismo Theravada, é sem dúvida, o mais “fundamentalista”, ( sem ter conotação negativa ), conservadorista e tradicionalista vertente do Budismo. Segue literalmente à risca os ensinamentos que Buda transmitiu há mais de 2 mil anos, não havendo qualquer discussão sobre alterações ou outras visões sobre esses mesmo ensinamentos. Na sua essência, apenas aquele que seja digno de coração, puro de alma, livres de tudo aquilo que é errado aos seus olhos, consegue atingir o estado de libertação, o Nirvana.
 
Budismo Mahayana
 
É a primeira adaptação do Budismo ao Homem. Passaram-se mais de 4 mil anos do aparecimento da primeira forma do Budismo, Theravada, para surgir outra escola de ensinamento, outra forma de ver os mesmos ensinamentos. Mahayana, significa o “grande veículo”. Revela-se importante no conceito de “ajuda e preocupação ao próximo”, o que faz completamente sentido, visto o seu objectivo ser a completa salvação e iluminação da humanidade em si. Nesta filosofia, acredita-se que os seres de luz e iluminados ( Chamados Budas ), podem de facto, existir ao mesmo tempo. Tem dois sub-ramos, sub-vertentes por assim dizer, nomeadamente a  Zen, que dá extrema importância à prática meditativa, e Escola Terra Pura, cuja prática de devoção é dirigida ao Buda da Luz Infinita. 
 
Budismo Vajrayana
Derivada do Budismo Mahayana, Vajrayana significa “Veículo de Diamante”. A essência e razão de ser do Budismo Vajrayana é o reconhecimento do conceito de que não haja nenhum ser humano que não seja capaz de alcançar o  que todo e atingir o estado budíco (tornar-se Buda) e entrar numa profunda compreensão e compromisso com a beleza e perfeição únicas com a Natureza. comunhão total com a perfeição que há na natureza. Tal como o Budismo Mahayana, também possui uma sub-vertente, que neste caso se divide em sub-vertente por si mesmo, ou seja o Budismo Tibetano, divide-se em Nyingma (A Escola Antiga), Kagyu (Transmissão Oral), Gelug (Terra de Cor Cinza) e Sakya (Virtuosos).
 
 
Passo 9
 
Aplicar os ensinamentos do Buda.
 
Não basta apenas “pregar” que é Budista ou seguidor do Budismo. Tem de se aplicar todos os dias, em todos os instantes da nossa vida, tudo aquilo que humildemente aceitamos como sendo ensinamentos importantes e relevantes tanto na nossa vida, como na iluminação do nosso ser. Não contrariar, adaptar ou menosprezar esses ensinamentos. Fazer deles um apoio para suplantarmos nós mesmos e a evitar obstáculos no nosso caminho. Fazer com que realmente sejamos merecedores de estar à altura desses ensinamentos, como pessoas de bem e seres de luz nós somos ou pretendemos ser.
 
 

 

São pequenos passos para algo muito maior que nós. Mas passos importantes. E quem tem vontade de absorver este conhecimento, de se iluminar e iluminar outros, tem de ser fiel a si mesmo e ao que absorve. Mas também convém esclarecer certos aspectos importantes de se saberem e dos mitos, que são associados ao Budismo e que nem sempre correspondem à verdade. O Budismo, pelo menos para mim, é mais uma Filosofia do que uma Religião. Buda nunca pretendeu ser um Deus e por isso, apesar de se dar o destaque merecedor da nossa dedicação e aplicação a Buda, tal não pode ser visto como uma relação com uma “divindade”. Poderá ser blasfémia para alguns, mas convém desmistificar esta questão, em parte, pelo nosso país ser de cultura cristã como já foi mencionado e não termos com isto de desligarmos dos antigos ensinamentos enraízados, ou deixar de ter ligação às pessoas relacionados com essa cultura. Temos é de ter sempre a mente aberta de modo a termos sempre o cuidado de não misturarmos ambas as matérias. Evitar conflitos e fazer ver o lado positivo que temos a oferecer sobre aquilo em que acreditamos. Uma pessoa que pratique actos maldosos não pode aspirar a ser seguidor desta filosofia de vida, pois “Não praticar o mal” é como que uma regra de ouro que nunca deverá ser quebrada. Outra regra de ouro, por assim dizer, não assumida, mas que definitivamente tem de estar enraízada, é de sermos seres simpáticos e gentis com todos, porque todos independemente das suas acções são nossos semelhantes, ou seja, não somos nem mais nem menos que ninguém. O vegetarianismo não é obrigatório, mas matar um animal, sem ter intenção de consumir a oferta sagrada que é o seu sacríficio é considerado por mim, muito grave. Uma maneira de equilibrar a balança é dedicar o seu tempo livre à prática de voluntariado seja social, ou animal. A generosidade, dedicação e sentimentos positivos que poderemos dar, iria não só reforçar o “Dana”, ( o acto de generosidade ), bem como é recompensante e enriquecedor ajudar quem precisa , especialmente os animais, que muitas das vezes não teem que os defenda. Há vícios saudáveis, mas todos aqueles que nos dão sofrimento, como drogas, alcool e jogo, devem ser abstidos, pois é nossa cruzada superar o sofrimento proporcionado por este tipo de situações, tal como actos de roubar, mentir, ou ter relações sexuais só para prejudicar quem nos rodeia, igualmente nos retira a luz. Conquistar o ódio e deixar a humildade ser parte de nós. Conquistarmos o ódio, saber domina-lo, não deixar que nos controle é meio caminho andado para a nossa paz, tal como ser humilde, pois todos somos iguais, ser igualmente fundamental. Sabermos pensar em nós e nos outros, sem centrarmo-nos na nossa pessoa, tem um factor de influência positiva.
 
E é isto que eu vos queria transmitir. Não me considero um Mestre, Guru ou Detentor da Verdade. Dei a minha visão e espero que vos tenha sido útil.
 
Grato pela vossa paciência.
 
Namastê
 
Paulo César
 

 

E-mail: PauloCesar@PauloCesar.co
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