Como fazer Meditação de Atenção Plena.

Imagem

 

Como fazer Meditação de Atenção Plena.

Por Sakyong Mipham Rinpoche

A atenção plena é essencial para a prática espiritual porque, não importa qual 
tradição espiritual sigamos, nossa mente deve ser capaz de permanecer no 
momento presente, se pretendemos aprofundar nossa compreensão e experiência.
Na meditação de atenção plena, ou shamatha, tentamos alcançar a estabilidade 
e a calma de nossa mente.
O que começamos a descobrir é que essa calma, ou harmonia, é um aspecto 
natural da mente. Através da prática da atenção plena simplesmente a 
desenvolvemos e fortalecemos, e, como decorrência, somos capazes de 
permanecer em nossa mente, com tranquilidade, sem luta. Nossa mente
 sente-se contente, naturalmente.
Um ponto importante é que, quando estamos no estado de atenção 
 plena, há uma inteligência sossegada. Não é como se tivéssemos “apagado”.
 Às vezes, as pessoas pensam que alguém que está em meditação profunda
 não sabe o que está se passando, que isso seria como estar adormecido. 
De facto, há estados meditativos em que negamos as percepções 
sensoriais, mas isso não é o que se pretende realizar com a prática deshamatha.
 

Criar um ambiente favorável

Algumas condições são úteis para a prática da atenção plena. Quando 
criamos um ambiente apropriado, é mais fácil praticar.
Por pequeno que seja o espaço de que alguém disponha para meditar,
 em sua casa, é bom que ele tenha um sentido de elevação e sacralidade. 
Também se deveria meditar em um local que não fosse muito ruidoso 
ou perturbador, e a pessoa não deveria se encontrar em uma situação 
tal que sua mente possa ser facilmente incitada à raiva, ao ciúme ou a 
outras emoções. Se ela estiver perturbada ou irritada, a prática será afectada.
 

Iniciando a prática

Encorajo as pessoas a meditarem frequentemente, mas por curtos 
períodos de tempo — 10, 15 ou 20 minutos. Quando se força muito, 
a prática pode adquirir muita “personalidade”, e o treinamento da 
mente deveria ser muito, muito simples. Assim, pode-se meditar 
10 minutos pela manhã e 10 minutos à tarde, e durante esses 
períodos realmente trabalhar com a mente. Depois, simplesmente 
pare, levante-se e vá embora.

Muitas vezes nos deixamos cair sobre a almofada para meditar 
e permitimos que a mente nos leve para qualquer lugar. Devemos 
 criar um senso de disciplina. Quando sentamos para meditar, podemos 
recordar-nos: “Estou aqui para trabalhar com minha mente. Estou 
aqui para treinar minha mente”. É correto dizer isso a si próprio, 
literalmente, quando se senta para meditar. Precisamos desse tipo 
de inspiração quando começamos a praticar.

Postura

A abordagem budista é que a mente e o corpo estão ligados. A energia 
flui melhor quando o corpo está erecto, pois, quando ele está curvado, 
o fluxo é modificado e isso afecta directamente nosso processo de 
pensar. Assim, há uma Yoga que lida com isso. Não estamos sentados
erectos porque estamos tentando ser bons alunos na escola; nossa postura realmente afecta nossa mente.
Pessoas que necessitam de uma cadeira para meditar devem 
sentar-se erectas, com os pés tocando o chão. As que usam uma 
almofada de meditação, como um zafu ou um gomden, devem 
encontrar uma posição confortável, com as pernas cruzadas e as 
mãos pousadas sobre as coxas, com as palmas para baixo. Os quadris 
não estão nem muito inclinados para a frente, o que cria tensão, nem 
inclinados para trás, de forma que a pessoa comece a se encurvar. 
Deve-se ter uma sensação de estabilidade e força.
Quando nos sentamos, a primeira coisa que precisamos fazer é 
verdadeiramente ocupar nosso corpo — verdadeiramente, ter 
um senso de nosso corpo. É frequente que nos estaquemos, imóveis, 
e façamos de conta que estamos praticando. Mas não podemos nem 
sentir nosso corpo, não podemos nem sentir onde ele se encontra. 
Em vez disso, é necessário que estejamos bem aqui. Assim, quando 
se inicia uma sessão de meditação, pode-se dedicar algum tempo no 
começo da prática a arrumar a postura. Pode-se imaginar que a espinha 
está sendo puxada para cima, do topo da cabeça, de forma que a postura 
seja alongada para, então, se acomodar.
O princípio básico é manter uma postura elevada, erecta. A pessoa está 
numa situação sólida: os ombros estão nivelados, os quadris estão 
nivelados, a espinha está bem empilhada. Ela pode ver-se a empilhar os 
ossos na ordem certa e a deixar que os músculos pendam dessa estrutura. 
Usamos essa postura para permanecer relaxados e despertos. A prática 
que estamos fazendo é muito precisa: deve-se estar muito desperto, 
embora calmo. Quando notamos que estamos ficando entorpecidos, 
ou caindo no sono, devemos verificar a postura.

 

O olhar

Para uma prática de atenção plena estrita, o olhar deve estar voltado
 ligeiramente para baixo, enfocando algo a uma pequena distância à 
frente do nariz. Os olhos estão abertos mas não arregalados; o olhar 
deve ser suave. Estamos tentando reduzir o estímulo sensorial tanto 
quanto possível. Pergunta-se: “Não deveríamos ter uma sensação do 
ambiente?”. Mas, nesta prática, esta não é uma preocupação nossa. 
Estamos apenas tentando trabalhar com a mente e, quanto mais elevarmos 
o olhar, mais distraídos ficaremos. É como se tivéssemos uma lâmpada 
acima da cabeça a iluminar o ambiente e, subitamente, nós a focassemos

directamente à nossa frente. Estamos intencionalmente ignorando o que 

se passa ao nosso redor. Estamos confinando o cavalo da mente em um 
curral menor.
 

A respiração

Quando praticamos shamatha, familiarizamo-nos cada vez mais com 
nossa mente e, em particular, aprendemos a reconhecer os seus 
movimentos, que experimentamos como pensamentos. Fazemos 
isso utilizando-nos de um objecto de meditação que nos fornece um 
contraste ou contraponto ao que se está passando na mente. Logo que 
nos distraímos e começamos a pensar em algo, o objecto da meditação 
nos traz de volta. Poderíamos colocar uma pedra à nossa frente e usá-la 
para focar a mente, mas usar a respiração como o objecto da meditação 
é particularmente útil porque isso nos relaxa.
Quando começamos a prática, tomamos conhecimento de nosso corpo, 
temos um sentido de onde ele está e, então, começamos a notar nossa 
respiração. A sensação completa de respirar é muito importante. A 
respiração não deve ser forçada, obviamente; respira-se naturalmente. 
A respiração entra e sai, entra e sai. Relaxamos a cada respiração.
 

Os pensamentos

Não importa que tipo de pensamento venha a surgir, a pessoa deve 
dizer a si mesma: “Este pode ser um assunto verdadeiramente importante 
em minha vida, mas agora não é o momento de pensar nisso. Agora, 
estou praticando meditação”. Nisso se resume quão honestos somos, 
quão verdadeiros podemos ser com nós mesmos, durante cada sessão.
Todos se perdem em pensamentos, algumas vezes. Poderíamos pensar: 
“Não acredito que tenha ficado tão absorto em algo assim”, mas 
devemos tentar não fazer disso um assunto demasiadamente pessoal. 
Apenas tentemos ser tão imparciais quanto possível. A mente, às vezes, 
ficará turbulenta e teremos de aceitar isso. Não podemos nos pressionar. 
Se estivermos tentando nos ver completamente livres de conceitos, sem 
nenhum discurso, é melhor desistirmos, isso simplesmente não vai acontecer.
Assim, simplesmente utilizando o processo de etiquetar, percebemos 
nosso discurso. Notamos que nos perdemos em pensamentos, etiquetamos
 isso como “pensando” —delicadamente e sem julgamentos — e 
retornamos à respiração. Quando temos um pensamento — não 
importa quão selvagem ou bizarro ele possa ser —, simplesmente 
deixamos que ele passe e voltamos à respiração, voltamos à situação 
do aqui, agora.
Cada sessão de meditação é uma viagem de descoberta para compreender 
a verdade básica de quem somos nós. No começo, a lição mais importante
 da meditação é perceber a velocidade da mente. No entanto, a tradição de 
meditação diz que a mente não precisa ser desse jeito: ela apenas não foi trabalhada.

Estamos falando de um assunto muito prático. A prática da atenção plena é simples e completamente factível. E, por estarmos trabalhando com a mente que 
experimenta a vida directamente, ao sentarmo-nos, simplesmente, 
sem nada fazer, já estaremos dando um passo enorme.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s