A casca do ego

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Acreditarmos na nossa existência enquanto entidade separada torna-nos frágeis. O ego é um “contra” todos os outros e, por isso, está claramente em minoria. Não admira que se torne um pouco paranoico, sempre a medir se o que acontece é por ele ou contra ele.

Então, para se sentir mais protegido, constrói uma casca à sua volta. Essa casca – que às vezes mais parece uma muralha ou um bunker – é essencialmente feita de medo: medo de ser fraco; medo de sofrer; medo de se expor; medo de perder; e, acima de tudo, medo de desaparecer.

Quanto mais medo tem, mais o ego desenvolve comportamentos arrogantes, agressivos, insensíveis e controladores. Mais quer ter razão, mais se quer demarcar dos outros – em melhor ou pior –, mais está imbuído de ideias e conceitos acerca de si próprio, dos outros e de tudo. Quanto mais medo tem, mais o ego reforça a casca com camadas sucessivas e impermeabilizadas, ao ponto de se tornar completamente cego, surdo e insensível aos outros. A sua casca repele então naturalmente o sofrimento alheio, sob os mais variados pretextos. Pode pretender, por exemplo, que certos seres humanos não têm alma ou que os animais não sentem a dor; que é normal deixar de visitar um velho amigo em fase terminal porque incomoda ver o seu sofrimento; que o bêbado que caiu na rua tem o que merece, e outros tantos argumentos sobre os quais as dores alheias deslizam como sobre teflon. Só assim se explica que pessoas normais, que até conseguem sentir afeto e compaixão pelos próximos, possam ser tão indiferentes em relação aos outros.

Em certa medida, esta casca que criamos para nos protegermos do sofrimento até funciona. Escudados atrás da nossa indiferença, conseguimos não ser afetados por coisa alguma desde que não nos toque diretamente. Assim, se o vizinho de cima sofrer em silêncio ninguém quer saber mas, se passar a noite aos gritos, já todos estarão interessados em encontrar uma solução. Não necessariamente para acabar com o sofrimento, mas pelo menos para acabar com os gritos.

É por causa desta casca que a culpa é sempre dos outros, que nós temos sempre razão e que, quando não conseguimos evitar o sofrimento alheio, lhe pegamos com as luvas antiaderentes da piedade – “coitado está a passar um mau bocado, mas antes ele que eu!” É por causa desta casca que o passado e o futuro são mais importantes que o momento presente, e é ela ainda que nos traz mergulhados no mundo mental e totalmente alienados do momento presente. Por causa dela andamos pela vida em piloto automático, anestesiados, insensíveis ao sofrimento – talvez – mas também a tudo o resto.

Autora: Tsering Paldron – Excerto da nova versão da Alquimia da Dor 

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