No que os Budistas acreditam.

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Aqui no Portal do Budismo, publicamos artigos sobre o Budismo, sobre as coisas positivas da Vida e do Mundo. É dada especial atenção aos ensinamentos budistas seculares, que visa transmitir conhecimento, paz e tranquilidade através dos seus textos de pensamento, reflexão e acção para todas as pessoas, independentemente da sua classe social, escolha de vida, e tantos outros factores que nos distinguem, sem contudo que signifique que sejamos diferentes na nossa essência. Como diz o Dalai Lama: ”Eu não estou interessado no surgimento de mais budistas. O meu interesse é apresentar conceitos budistas que sejam aceitáveis e úteis para pessoas de todas as crenças religiosas e para aqueles sem qualquer fé religiosa.” porém achamos pertinente apresentar um post como este abaixo, que esclarece questões sobre o budismo em geral e os budistas.

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”Esse Dharma que conquistei”, disse Gautama ao relatar a sua descoberta naquela noite sob a ramagem da árvore original, ”é profundo, difícil de ver, difícil de despertar em nós, sereno, excelente, livre do constrangimento do pensamento, subtil, só percebido pelos sábios. Mas as pessoas gostam do seu lugar, é nele que se deleitam e repousam. Não é fácil, para quem repousa e se deleita com gosto no seu lugar, perceber esta esfera da condicionalidade, do surgir condicionado”.

Esse é o relato de um homem que empreendeu uma jornada e chegou a seu destino. O que viu era muitíssimo estranho, difícil de conceituar ou por em palavras. Ao mesmo tempo, compreendeu que outros talvez já tivessem passado pela mesma experiência. Pois aquilo para o qual despertou, a ”condicionalidade” – coisas específicas geram outras coisas específicas – era, num certo sentido, bastante óbvio. Todos sabem que sementes dão origem a plantas, que ovos dão origem a galinhas.  Entanto, insistia, esse ”surgir condicionado” é bem difícil de perceber.

Porque? Porque as pessoas ignoram a contingência fundamental da vida apegando-se ao seu lugar. O lugar de alguém é aquele a que esta mais fortemente ligado, o alicerce sobre o qual todo edifício de sua identidade pessoal se ergue. Consiste na identificação com um sitio físico e uma posição social, nas crenças religiosas e politicas, na convicção instintiva de que se é um “eu” solitário. O meu lugar é aquele onde estou e onde me defendo de tudo quanto possa desafiar o que é ”meu”. Representa minha atitude frente ao mundo, abrangendo o que se encontra deste lado da linha divisória entre ‘eu’ e ‘tu’. Semelhante apego gera a sensação de que estou fixo e seguro numa existência que é tudo, menos segura e fixa. A sua perda, receio muito, mergulhará no caos, na falta de significado ou na loucura as coisas que mais valorizo.

A busca de Gautama levou-o a por tudo de lado tudo quanto se relacionava ao seu lugar – rei, pátria, posição social, deveres de família, crenças, convicção de ser um eu dotado de corpo e espírito – mas não provocou nele uma crise psicótica. Pois, abandonando o seu lugar (alaya), ele conquistou um chão (tthana). Mas esse não é o chão aparentemente solido de um lugar – é o chão precário, transitório, ambíguo, imprevisível, fascinante e aterrador chamado de ”vida”. A vida é um ”chão sem chão”: logo que surge, desaparece para se renovar, entrar em colapso e desaparecer de novo. Flui incessantemente como o rio de Heraclito, que não se pode atravessar duas vezes. Se tentar segura-lo, ele escorrerá por entre seus dedos.

Não se deve confundir esse chão sem chão com ausência de apoio. Ele dá apoio de uma maneira diferente. Enquanto o lugar prende e paralisa, o chão solta e deixa ir. Não fica parado um instante. Mas, para merecer o seu apoio, precisa de se relacionar com ele de um modo diferente. Em vez de permanecer em pé, firme, com os punhos cerrados para se sentir seguro no seu lugar, terá que deslizar pela sua superfície liquida e cintilante como uma libélula, vencer a sua corrente como um peixe veloz.Buda comparou mesmo essa experiência a ”entrar num rio”.

O despertar de Buda envolveu uma mudança radical de perspectiva, não apenas a conquista do conhecimento privilegiado de uma verdade superior. Ele jamais empregou as palavras conhecer e verdade para descreve-lo. Só falou em despertar para um plano contingente – a esfera da ”condicionalidade, do surgir condicionado”- que até então, fora obscurecido pelo seu apego a uma posição fixa. Embora possa induzir a uma reconsideração daquilo que ”conhecemos”, o despertar, em si, não constitui primordialmente um acto cognitivo. Trata-se antes de um reajustamento existencial, de uma acomodação sísmica no interior da própria pessoa e no trato com os semelhantes. Longe de fornecer a Buda uma panóplia de respostas prontas as grandes questões da vida, permitiu-lhe encarar essas questões de um ponto de vista inteiramente novo.

Para viver num terreno assim tão movediço, precisamos antes de tudo de calar a obsessão com o que aconteceu ou acontecerá e permanecer mais atentos ao que acontece agora. Isso não significa negar a realidade do passado e do futuro, mas sim estabelecer um novo relacionamento com o carácter transitório e temporal da existência. Em vez de remoer o passado e especular sobre o futuro, devemos ver o presente como o fruto do que foi e o do que será. Buda não prescrevia o recuo para um agora místico e fora do tempo, mas um contacto directo com o mundo mutável tal qual se desdobra momento a momento.

Ter consciência do que sucede no presente exige o cultivo da atenção plena, que Buda definia como ”caminho único” para se alcançar a presença concentrada e a sensibilidade sem as quais não nos manteremos firmes num chão sem chão. Com efeito, ele explica a atenção plena (sati) como algo enraizado (patthana) no corpo, sentimentos e mente da pessoa, tanto quanto no mundo que a rodeia. Ficamos atentos quando percebemos o que acontece, e o contrario é deixarmos que as coisas aconteçam como se estivessem envoltas numa neblina ou fossemos premidos por acontecimentos com tamanha intensidade que reagíssemos antes de reflectir.

A atenção plena concentra-se inteiramente nas condições especificas da experiência diária. Nada tem a ver com coisas transcendentes ou divinas. Serve como antídoto para o teísmo, como cura para a compaixão sentimental e como bisturi para remover o tumor da crença metafísica. ”Quando um monge respira fundo, ele sabe: ‘Estou respirando fundo’; quando respira superficialmente, ele sabe: ‘Estou respirando superficialmente”’, diz o Buda. ”Essa pessoa age com atenção absoluta ao olhar para a frente e para trás, ao flexionar e estender os braços, ao vestir suas roupas e carregar sua tigela, ao comer, beber e degustar, ao defecar e urinar, ao caminhar, ficar de pé, sentar-se, dormir, acordar, conversar e manter silencio”.

Não há nada suficientemente vil ou mundano para merecer nosso descaso. A atenção plena aceita como objecto de pesquisa tudo aquilo que surge em seu horizonte de percepção, não importa quão penoso ou inquietante seja. Não convém que procuremos ou esperemos achar uma grande verdade por trás do véu das aparências. O que aparece e como reage ao que aparece; só isso que importa.

Atentando bem para o que acontecia dentro e fora dele, Buda despertou para o vasto campo aberto dos factos possíveis. O seu despertar não resultou apenas na teorização intelectual, mas também no enfoque meticuloso na trama da experiência. O nível que alcançou incluía ainda a nova perspectiva de vida que se abriu dentro dele graças a exposição ao ”surgir condicionado”. Quem ”repousa e se deleita com gosto no seu lugar”, continua Buda, ”acha difícil também perceber esse lugar: o arrefecimento das compulsões, desapego, cessação e nirvana”.

Algo bem no intimo de Buda parece ter cessado. Estava agora livre para não mais viver neste mundo a partir da limitada perspectiva de seu lugar. Podia permanecer inabalável diante do fluir desordenado dos acontecimentos sem que os desejos e medos dai oriundos o agitassem. Jazem no âmago dessa visão uma serenidade profunda, uma renuncia definitiva de hábitos e a ausência, ao menos momentaneamente, de ansiedade e conflito. Ele encontrou uma maneira de viver no mundo sem estar condicionado pela cobiça, pelo ódio ou pela confusão. Isso era o nirvana. Agora, poderia encarar o mundo da perspectiva do desapego, do amor e da lucidez.

 A chave do despertar de Buda deve ser procurada em sua aceitação  plena da transitoriedade. ”Quem ve o surgir condicionado” diz ele ”vê  o Dharma. E quem vê o Dharma, vê o surgir condicionado”.  Reconhecia que tanto ele mesmo quanto o mundo a sua volta eram  formados por factos fluidos e acidentais nascidos de outros factos  acidentais e fluidos – mas que não precisavam ter acontecido.  Houvesse feito outras escolhas, tudo seria diferente. ”Esquece o  passado” recomendou ao viandante Udayin. ”Esquece o futuro. Ensinar-te-ei aquilo que aparece. Quando isto não existe, aquilo não vem a ser; com a cessação disto, cessa aquilo”.

Buda rejeitava a ideia de que a  liberdade e salvação dependem do acesso privilegiado a uma fonte ou plano eterno, imutável, quer se chama Atman ou Deus, Consciência Pura ou Absoluto. Ter liberdade, para ele, significa eximir-se da cobiça, do ódio e da confusão. Essa liberdade (nirvana) além do mais, não se alcança pela fuga do mundo, mas pelo mergulho até o proprio cerne do efêmero.

Os bramanes, na época de Buda, sustentavam que o ser humano era animado por um espírito eterno ou um eu (atman) cuja natureza se identificava com a realidade perfeita e transcendente de Brahman (Deus). Essa crença é bastante sedutora, pois implica que aquilo que somos realmente jamais perecerá. Além disso, parece confirmada por uma convicção profunda de sermos testemunhas perenes de um fluxo incessante de experiências. A visão de um bando de pássaros voando pelo céu, o gosto de uma fruta ou a melodia do Concerto de Brandeburgo, de Bach, podem surgir e desaparecer, mas a consciência de conhecermos essas coisas persiste.

Desde a mais remota infância, alimento a convicção intuitiva de que uma mesma consciência testemunhou e continua a testemunhar cada acontecimento da minha vida. Se olho uma fotografia de quando era bebe ou avalio quando cresci e mudei ao longo dos anos, concluo que essa testemunha atemporal não pode identificar-se com o menino confuso, o adolescente rebelde, o jovem monge ou devoto ou o homem de meia idade céptico. Todos esses aspectos de mim mesmo são, ao que parece, apenas manifestações diferentes de meu ”ego” ou ”personalidade” e nada tem a ver com o eu essencial, imutável, que conhece e rememora essas coisas..

Ao mesmo tempo, uma das minhas lembranças mais inquietantes foi uma ocasião em que minha mãe abalou a minha certeza instintiva de ser ”eu”. Era Natal e eu deveria ter 16 anos. Ela e minha Tia folheavam um álbum de fotos na mesa da cozinha e depararam com a foto de um homem em uniforme militar, apertando os olhos para o sol com um cachimbo. A minha Mãe disse-me ”Se tudo tivesse acontecido de outra foram, ele poderia ser seu pai”. Pensei então: ”Mas, se esse homem fosse meu pai, eu seria eu?” Raciocinei: se outro das miriades de espermatozóides de meu pai verdadeiro houvesse fecundado o ovulo de minha mãe, o fruto dessa mistura de cromossomos teria sido eu? E se o mesmo espermatozoide encontrasse o ovulo do próximo ciclo de minha mãe, eu seria o bebe que dai nascesse?

A despeito desses vislumbres enervantes de minha própria incerteza, a convicção de ser uma testemunha permanente e atemporal continuou tão solida e indiscutível para mim quanto a visão do sol erguendo-se toda manha a leste, cruzando o céu e pondo-se a oeste. Parece que fui programado para experimentar a mim mesmo e ao mundo dessa maneira. Mas, apesar da evidencia inegável de meus próprios olhos, sei muito bem que a terra é que nasce e se põe, não o sol. Buda fez para o “eu” o que Copérnico fez para nosso planeta: colocou-o no seu devido lugar, embora ele continuasse parecendo o que antes parecia. Buda não negava a existência do eu, como Copérnico não punha em duvida a existência da terra. Bem ao contrario, em vez de de vê-lo como um ponto fixo e não acidental a cuja volta tudo o mais girava, concluiu que cada eu é um processo fluido permanente – como todas as outras coisas.

A tese de que o ser humano consiste num espírito puro e eterno, mas ligado temporariamente a um corpo corrupto e efémero, era generalizada no mundo antigo.[…] Buda declarou que sua percepção do carácter fortuito da vida ocorreu ”contra a corrente”, desafiando a intuição, isto é, o senso instintivo de sermos testemunhas atemporais de nossa própria experiência. Impugnou a crença numa alma eterna, e implicitamente, na realidade de um Deus transcendental, Buda  instava os seus seguidores a dar o máximo de atenção ao mundo em si dos fenómenos. A maneira como definiu a pratica da meditação virou de cabeça para baixo a sabedoria cultivada na época. Não instruiu os discípulos a voltar-se para dentro, a fim de perceber a natureza de sua alma, mas sim tomar consciência plena de seu corpo. Desse modo, com serenidade, notariam o que porventura lhes estivesse afectando os sentidos a cada momento, o modo como surgia e desaparecia, seu carácter fugaz, sua impessoalidade, sua alegria, sua tragédia, seu fascínio, seu terror.

As metáforas que empregou para descrever a pratica da atenção plena são simples e praticas. Comparou as pessoas que meditam a carpinteiros habilidosos, profissionais que aprenderam a fazer uso de suas ferramentas com extraordinária precisão, podendo assim desbastar um pedaço de maneira ou retalhar uma carcaça de animal com esforço mínimo e eficiência máxima. A percepção acurada não é descrita como concentração passiva num objecto único e fixo, mas como envolvimento subtil num mundo complexo e mutável. A atenção plena é uma habilidade que pode ser aperfeiçoada. Trata-se de uma escolha, um ato, uma resposta que brota da inteligência serena, mas curiosa. É solitária e sensível a textura peculiar do sofrimento próprio e alheio. 

“Não acreditem no que eu digo, testem por si próprios.”  Buda

 

O que Buda ensinou contrariava as ortodoxias da época. Não admira, pois, que haja percebido após seu despertar quão ”fatigante e arriscado” seria para ele instruir os outros. Afinal, as pessoas querem ser eternas e não aceitam facilmente a realidade inevitável da morte, aspiram a felicidade e fogem da contemplação da dor, insistem em preservar o senso do eu, evitando fragmenta-lo nos seus componentes vagos e impessoais. Vai contra os ditames da intuição aceitar que a imortalidade possa ser vivenciada a cada instante quando nos livramos do abraço letal da ganancia e do ódio  e que só nos tornamos pessoas plenamente individuadas depois de renunciar as crenças num eu essencial.

Buda era um dissidente, um iconoclasta. Nao queria de forma alguma se envolver com a religião sacerdotal dos bramanes. Para ele, a teologia dessa religião era ininteligível,  seus rituais eram inúteis e a estrutura social que legitimava era injusta. No entanto, compreendia bem o seu apelo irresistível, a sua tirania sobre a mente e o coração humano. Recusou-se a fazer o papel do guru iluminado, que exige submissão tácita antes de iniciar os seus discípulos em doutrinas reservadas a uma elite espiritual. Mas, ainda assim, não podia permanecer calado. E chegou a hora que teve de entrar em acção. Constatou que pelo menos algumas pessoas, ”com pouca poeira nos olhos”, o compreenderiam. Abandonou, pois, sua árvore em Uruvela e foi para Baranasi, onde sabia que alguns de seus antigos companheiros, um grupo de cinco brâmanes de Sakiya, estavam instalados no parque dos Cervos, perto da aldeia de Isipatana. …

Introdução: Portal do Budismo

Texto:  Stephen Batchelor

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