Dalai Lama: Praticar os Valores Humanos no Dia a Dia.

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Qual é o propósito da vida — O propósito da vida é a felicidade. Acredito que em nossas vidas não há garantia de um futuro, mas sempre esperamos algo de bom. Isso é o que nos sustenta e nos dá alento. Assim, o foco básico de nossas vidas é poder viver a felicidade — e todos os seres sencientes buscam a felicidade, não é apenas o ser humano. Todos os seres têm o direito de sobrepor o sofrimento e achar a felicidade.

Dois níveis de sofrimento — Há dois níveis de sofrimento e prazer. Um é ligado aos sentidos, e o outro ligado ao plano mental. O nível ligado aos sentidos também está presente nos animais. Ele representa o medo e a busca do prazer imediato, pois é uma visão de curto prazo: vemos algo agradável, ficamos bem. Temos uma experiência desagradável, ficamos mal. Nesse nível, há uma resposta imediata, mas sem pensar, sem análise.

Já no nível mental funciona um processo de análise, de raciocínio. Então, através do pensamento, percebemos que algo que parece bom a curto prazo, pode ser mau a longo prazo e vice-versa.

Superioridade do nível mental — As várias facilidades materiais que nos são oferecidas pelo mundo actual são muito benéficas. Mas esses confortos, basicamente, não nos trazem a felicidade. Quando há uma circunstância agradável ligada a objectos materiais, isso traz uma sensação de prazer, mas simultaneamente a mente pode não estar tranquila. E esse prazer não terá o poder de acalmar a mente.

Por outro lado, se, por exemplo, uma pessoa está tranquila no nível mental, pode sobrepor as ocorrências do nível material. Porque a experiência no nível mental é mais forte do que a do nível material. E o contrário não é verdadeiro.

Uma pessoa vê um sofrimento físico como algo com sentido, algo que significa um resgate, uma experiência, uma aprendizagem. Outra pessoa vê apenas sofrimento na mesma situação. Isso gera duas experiências totalmente diferentes. Assim, a questão central é: queres sofrimento ou prazer? Queres felicidade? Então, terá que analisar a realidade, e verá que o desenvolvimento material é importante, mas que o desenvolvimento espiritual é o fundamental para o bem estar.

O desenvolvimento, o conforto material é útil, mas é uma satisfação menor face ao desenvolvimento da espiritualidade.

Espiritualidade — Quando digo espiritualidade não me refiro necessariamente a uma religião. Há dois níveis de espiritualidade: um com fé religiosa, outro sem fé religiosa. Vou centrar  na espiritualidade não religiosa.

Nós, seres humanos, temos o dom único do raciocínio. É dentro desse contexto que é importante treinar a mente. E, para treina-la, é importante saber, primeiro, como ela opera.

Quando falo em mente, não me refiro à mente física, mas ao conjunto de ideias, emoções etc. Para que se treine esse conjunto, é preciso saber que tipo de pensamento é benéfico e quais são os pensamentos negativos.

A divisão entre negativo e positivo tem que ter se basear em algum factor. Portanto, vamos definir pensamentos benéficos, alegres, como positivos, e pensamentos dolorosos, infelizes, como negativos. E o que queremos com o treino da mente é incrementar os pensamentos positivos.

No mundo natural, distinguimos o que é positivo do que é negativo, e fugimos do negativo, buscando o positivo. O mesmo acontece no nível mental, onde temos que procurar o positivo, e fugir do negativo.

Isso será muito útil para mente, pois temos uma mente brilhante, que pode ser treinada, que pode aprender. Temos a incrível capacidade de treinar a mente para ser usada adequadamente, e adotar atitudes corretas para se ter uma vida feliz.

Considerando a minha própria experiência, posso dizer que se pode modelar a mente, se pode mudar de atitude. E, se tivermos uma atitude mental correcta, mesmo em meio a situações más e negativas no nosso ambiente poderemos ser felizes. Mas se a mente estiver perturbada, negativa, então pode estar no melhor ambiente, no meio de bons amigos, com dinheiro, com tudo para ser feliz e se continuar a ser infeliz.

Sabem, quando eu era jovem tinha um péssimo feitio, que herdei do meu pai. Então, tive que aprender, tive que analisar qual era a utilidade desse mau  feitio e avaliar, de um lado oposto, qual era a utilidade e a função da compaixão.

Quando se analisam os dois lados, se vê que as nossas emoções negativas são prejudiciais e geram infelicidade, e que as emoções positivas como compaixão nos trazem felicidade e geral tranquilidade.

Então, após essa análise, mudei a minha atitude, o meu estado mental. É claro que algumas vezes o mau humor volta, mas mudei muito, todos podem fazer isso, podem melhorar muito, porque todos temos exactamente o mesmo potencial.

A função do amor e da compaixão — Gostaria de explicar qual é a importância do amor e da compaixão. É importante saber o que é compaixão, algumas vezes pensamos que é pena, mas isso não é compaixão. Compaixão é o senso de preocupação, mas mais do que isso, é a noção clara de que todos os seres têm exactamente o mesmo direito à felicidade. Essa compreensão é que nos dá a compaixão.

Também um outro aspecto que costuma ser confundido com compaixão é a sensação de proximidade, de ligação que temos com amigos e parentes. Mas isso não é compaixão verdadeira, porque esse sentimento está ligado ao apego.

Muitas vezes, o nosso senso de preocupação com o outro depende da atitude que ele adopta. Se a pessoa age de forma negativa, o nosso senso de compaixão desaparece. Mas um senso de compaixão verdadeiro é o que nos leva a ver o outro como tendo exactamente o mesmo direito que eu à felicidade. A compaixão que se assenta no apego não se sustenta. A que se baseia na compreensão da igualdade de todos os seres é desprovida de apego, e é verdadeira.

Qual é o benefício da compaixão? Ela nos traz força interior. Geralmente, temos um senso de “eu, eu, eu”. E a nossa mente centra tudo em nós mesmos. Então, todas as experiências negativas, mesmo pequenas, se tornam muito dolorosas, enormes. Mas quando pensamos nos outros, a nossa mente se amplia, e os nossos pequenos problemas  tornam-se  realmente pequenos, e as coisas negativas não prejudicam nossa mente.

Alguns, quando experimentam tragédias que são involuntárias, se sentem enterrados numa montanha de sofrimento. Mas, por outro lado, quando se pensa voluntariamente nos problemas dos outros, procura-se alivia-los dos seus sofrimentos, essa atitude voluntária traz uma abertura para o ser. Dessa maneira, mesmo em meio de problemas pessoais, isso traz uma base de clareza, e a pessoa será capaz de se sustentar.

Compaixão e bem-estar — Quando se pensa em compaixão por outras pessoas, alguns perguntam-se isso não seria sinónimo de auto-sacrifício. Não, não é. Porque não se deve ser negligente em relação a si mesmo. E, baseado na minha própria experiência, acredito que se deve ser compassivo em benefício próprio.

Um exemplo: uma vida feliz precisa de amigos, apoio. Há amigos do dinheiro, amigos do poder, mas para esses indivíduos, se o dinheiro acaba ou o poder se vai, a amizade também acaba. Mas os amigos verdadeiros ficam.

Então, como criar amigos verdadeiros? Se tiver um sentimento de compaixão, terá mais amigos verdadeiros. Mostre sentimentos gentis e sorria, e terá bons amigos. Porque essa atmosfera pacífica será a sua base, que irá criar as condições para a amizade.

A prática de compaixão também é imensamente benéfica para a saúde. De acordo com a medicina, os que tem mais compaixão, são mais interessados pelos outros, geralmente são mais saudáveis quando comparados com pessoas egoístas. Os egoístas sofrem mais frequentemente de enfartes e outras doenças.

A mente mais egoísta, mais voltada para si mesma é muito ruim para a saúde. A mente mais compassiva, mais voltada para o próximo traz mais tranquilidade, resultando por isso em saúde muito melhor.

Vejamos a sociedade actual, em que a criminalidade está crescendo, ligada à problemas económicos e sociais, como a diferença entre ricos e pobres (inclusive entre países ricos e pobres). No nosso sistema educacional, muita atenção é dada ao desenvolvimento do intelecto, e menor atenção é dada ao coração, aos sentimentos. Pois isso é considerado tarefa da religião. E assim as crianças não recebem nenhuma orientação sobre como serem mais compassivas, e desenvolver um coração mais generoso. Mas a compaixão é tão importante para a sociedade que é incentivada por todas as religiões.

As religiões e a compaixão — Por causa das diferenças filosóficas entre as grandes religiões existem diferentes técnicas para desenvolver a compaixão e algumas diferenças da definição do que seja. Mas basicamente todas elas falam da necessidade de se cultivar a compaixão.

Portanto, sinto que mesmo neste século, as maiores tradições religiosas têm um papel importante no desenvolvimento dessas qualidades. Vejo aqui pessoas de diferentes tradições religiosas, o que me faz sentir feliz, porque a tolerância religiosa é muito importante. E acredito que, independente de diferentes tradições religiosas, todos temos o potencial de ajudar a humanidade.

Vim do Oriente e sou um monge budista, assim, naturalmente, quando falo desses valores e do treino da mente, o faço da minha perspectiva de monge budista. Mas é claro que não quero influenciá-los. Devem manter suas tradições religiosas, mudar de religião não é bom, pode gerar mais confusão do que benefício. Portanto, mantenham e sigam sua fé.

Cada uma das grandes religiões tem coisas únicas, mas também há muita coisa em comum entre elas. Assim, é sábio usar técnicas úteis de outras religiões, mesmo sem mudar de religião. Até para aplicá-las na própria religião. Com isso, as tradições religiosas diferentes desenvolvem respeito mútuo e compreensão. Isso é fundamental.

A compaixão e a bondade são indispensáveis. Sem esses valores não há felicidade. Mas muitos crêem que a prática de valores como a compaixão, o perdão e o amor são relevantes apenas para os que praticam uma religião. Isso não é verdadeiro. Podemos ver que no passado e presente existiram pessoas que mesmo sem nenhuma fé religiosa tinham esse sentimento de cometimento, de responsabilidade, de compaixão pelo próximo. Essas pessoas tornaram-se mais felizes, mais úteis, mais benéficas para a sociedade.

A universalidade da compaixão — Podemos questionar se o valor da compaixão, de um coração compassivo é universal. Eu acredito que todos os seres humanos têm o mesmo potencial. Basicamente, o ser humano é voltado para a vida e comunidade. Assim, a semente da compaixão está lá, a semente do trabalho em conjunto está lá. É da natureza humana trabalhar em conjunto. O individualista não pode sobreviver.

As abelhas também são animais sociais. Não há polícia, não há um estado, no entanto trabalham em conjunto. Uma abelha não pode ser individualista. Mas, diferentemente dos outros animais sociais, o ser humano tem a capacidade de se votar ao altruísmo ilimitado. Temos a semente da compaixão dentro de nós. Todos nós.

Quando vemos os benefícios de uma mente compassiva, e o mal de uma mente não compassiva, é fácil ver a diferença. Então, voluntariamente iremos analisar cada vez mais, mudar cada vez mais a nossa atitude. E assim, dia após dia, mudamos.

O treino da mente não pode ser imposto a ninguém. É preciso que nós mesmos vejamos os benefícios. Pense sobre o que o ódio traz para sua vida, para sua saúde, para as pessoas que estão à sua volta. Pense sobre a compaixão e o que traz. E assim, teremos o ímpeto de cultivar certos valores, e rejeitar outros.

Dessa maneira crescemos a cada dia, mas se não fazemos nada para reduzir nosso ódio e cultivar a compaixão tudo ficará como está, a semente nunca irá germinar.

Normalmente nossos problemas nascem de percebermos apenas o nível das aparências, e não a realidade. Ficamos no nível das aparências, e com base nelas fazemos o nosso julgamento. Também nos concentramos na felicidade de curto prazo, e não na de longo prazo.

DALAI LAMA

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