O Que Te Faz Ser Budista ? |Dzongsar Khyentse Rinpoche

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Agora que o budismo está florescendo no Ocidente, ouço falar de pessoas que estão alterando os ensinamentos budistas para enquadrá-las na forma de pensar dos tempos modernos. Se há algo a ser adaptado, são os rituais e símbolos, não a verdade em si. O próprio Buda afirmou que a sua disciplina e métodos deveriam ser adaptados, de modo apropriado, a diferentes épocas e lugares. Mas as quatro verdades não precisam ser actualizadas nem modificadas; de qualquer modo, seria impossível fazê-lo. Pode-se trocar a xícara, mas o chá permanece puro. Depois de sobreviver por 2.500 anos e viajar 12.430.059 metros desde a árvore bodhi, na Índia central, até Times Square, em Nova York, o conceito “todas as coisas compostas são impermanentes” continua a aplicar-se. A impermanência continua a ser impermanência na Times Square. Não há como torcer essas quatro regras; não há excepções sociais ou culturais.

Diferentemente de algumas religiões, o budismo não é um kit de sobrevivência para a vida, que dita quantos maridos uma mulher deve ter, onde pagar impostos ou como punir os ladrões. Na verdade, os budistas a rigor, não têm um ritual para cerimónia do casamento. O propósito do ensinamento de Sidarta não foi dizer às pessoas aquilo que elas queriam ouvir. Ele ensinou movido pelo forte impulso de libertá-las das suas concepções equivocadas e da sua infindável falta de compreensão da verdade. Entretanto, para explicar essas verdades de modo eficaz, Sidarta ensinou por diferentes modos e meios, de acordo com a necessidade de suas diferentes plateias. Essas diferentes formas de ensinamento são hoje rotuladas como as diferentes “escolas” do budismo. A visão fundamental de todas as escolas, porém, é a mesma.

O grande Nagarjuna escreveu que o Senhor Buda não afirmou que após abandonar o samsara existe o nirvana. A não existência do Samsara é o nirvana. Uma faca é afiada num processo em que duas coisas se chocam: a pedra de amolar e o metal. Do mesmo modo, a iluminação é resultado da exaustão dos obscurecimentos e da exaustão dos antídotos dos obscurecimentos. Ao final, o caminho da Iluminação terá de ser abandonado. Se você ainda se define como budista, ainda não é um Buda.

Dzongsar Jamyang Khyentse — Excerto do livro  “O Que Te Faz Ser Budista?”

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