Os Oito Níveis da Consciência | Thich Nhat Hanh

CANNES, FRANCE - MAY 22:  Exiled Vietnamese Buddhist monk Thich Nhat Hanh attends a photocall promoting the film 'Buddha' during the 59th International Cannes Film Festival on May 22, 2006 in Cannes, France.  (Photo by Peter Kramer/Getty Images)

O primeiro nível da consciência é a consciência do olhar. A forma é o objecto dos olhos. Quando os olhos e a forma encontram um ao outro, eles trazem a “visão” sobre a consciência do olhar. A consciência do olhar sempre tem contacto, atenção e sentimentos, porque qualquer consciência tem as cinco formações mentais universais dentro dela. Elas acontecem muito rápido, talvez em menos de um milissegundo.

Da segunda até a quinta consciência temos: a consciência da audição, a consciência do olfacto, a consciência do paladar, e a consciência do corpo. Corpo e toque, língua e gosto, nariz e cheiro, ouvido e som, olhos e forma. Essas consciências são um tipo de fluxo; sua natureza é um continuum, sempre passando por nascimento e morte.

É como a chama de uma vela. Nós temos a ilusão, a falsa percepção, de que é um chama, mas ao invés disso há uma sucessão de milhões de chamas juntas sem interrupção. Quando alguém desenha um círculo com uma tocha flamejante, poderá ver um círculo de fogo. Mas isto é uma ilusão de óptica. Quando o movimento é feito muito rapidamente, tem a impressão de que há um círculo todo de fogo ao invés de apenas uma chama.

A consciência tem a natureza da cinematografia, com uma imagem seguindo outra, dando a impressão de que é algo contínuo. Assim todas as cinco consciências operam desta maneira. Quando vê um elefante caminhando, há uma sucessão de imagens do elefante, sujeito e objecto sempre mudando. Essas cinco consciências podem parar de operar e manifestar-se de novo quando existem as condições certas. Elas não são contínuas como as outras consciências. Quando vai dormir, talvez três, quatro, ou cinco param de operar continuamente.

De acordo com os ensinamentos budistas, quando elas operam sozinhas sem a consciência da mente, elas podem ter a oportunidade de tocar a dimensão absoluta da realidade, ou última. Não há pensamento. O primeiro momento de tocar e sentir pode ajudar essas cinco consciências a tocar a dimensão absoluta, tocar a realidade. Isto é chamado em sânscrito de pratyaksha. Há um contacto directo, sem discriminação ou especulação. Mas quando as cinco colaboram com a consciência da mente, então o pensamento, a discriminação, a especulação instalam-se e elas perdem o contacto com a dimensão absoluta, com a realidade.
A sexta é chamada de consciência da mente. Ela também pode ser ininterrupta, se entrar num coma, ou dormir sem sonhar, ou entrar numa meditação sem pensamento, sem percepção. Se sonha enquanto dorme, a sua sexta consciência ainda opera, mas ela não obtém forma, som, etc. das cinco primeiras, mas da oitava, a consciência armazenadora. A consciência armazenadora contém as sementes de tudo, assim o mundo dos sonhos é criado a partir da consciência armazenadora.

Todas as consciências se manifestam a partir da base, das sementes armazenadas. A semente da consciência do olhar dá origem à consciência do olhar. A semente da consciência do olfacto dá origem à consciência do olfacto. Objecto e sujeito surgem ao mesmo tempo.

A sétima é manas, o solo para a sexta consciência (consciência da mente) se apoiar a fim de manifestar-se. Manas tem uma visão errada sobre si mesmo. Está sempre procurando prazer e tentando evitar o sofrimento. Manas ignora a parte boa do sofrimento e os perigos da busca pelo prazer. Manas ignora a lei da moderação. Um praticante deve tentar instruir manas a transformar as visões erradas a respeito de si. Nós devemos instruir manas sobre o facto de que há um grande perigo na busca pelo prazer; que nós não deveríamos tentar fugir do sofrimento porque que se nós soubermos fazer bom uso do sofrimento, a felicidade verdadeira se tornará possível. Este é o trabalho da meditação.

A consciência da mente com concentração plena pode ajudar a abrir um novo caminho na consciência armazenadora. Todas as acções que nós praticamos são preservadas pela consciência armazenadora. Qualquer pensamento que nós tenhamos produzido hoje ou ontem, seja na linha do pensamento correto ou do pensamento não-correcto, é sempre armazenado. Nada é perdido, e irá retornar em algum momento como retribuição.

A consciência armazenadora recebe a informação, recebe a acção, e as processa e permite que amadureçam, e se aperfeiçoem. O amadurecimento pode aparecer em qualquer momento. As sementes da informação podem se manifestar na tela da consciência da mente. O armazenamento pode ser comparado com um disco rígido, o qual mantém e armazena a informação. Mas a informação no seu disco rígido é estática, ela não está viva, enquanto todas as sementes na consciência armazenadora estão vivas e mudando a todo momento, passando por nascimento e morte, renovando-se todo o tempo; elas são coisas vivas.
Características das Sementes na Consciência Armazenadora

A bija, as sementes, tem características. A primeira característica de uma semente é Kshanakarma em sânscrito. Ela significa passar por nascimento e morte a todo momento, cinematograficamente, sempre mudando, sempre evoluindo. Não como as informações que armazena no seu computador que permanecem as mesmas. Elas estão vivas, crescendo, amadurecendo. A sua natureza é instantânea (em sânscrito, Kshana); isto significa que elas subsistem apenas por uma unidade de tempo muito curta.

O segundo aspecto das sementes é sahabhu em sânscrito. Isto significa que a semente de uma formação mental e a formação mental coexistem, servindo como causa e efeito uma a outra. Elas estão sempre juntas como a esquerda e a direita. Por exemplo, a causa e o efeito se manifestam ao mesmo tempo. Como o sujeito e o objecto, esquerda e direita, acima e abaixo.

O terceiro aspecto das sementes é bhavangasrota em sânscrito. Isto significa que ela forma uma série contínua. Ela gera suas próprias frutas e sementes, de novo e de novo. Ela faz um continuum. Ela não é um objecto estático, ela é um fluxo. Ela tem a sua própria natureza: uma semente de milho manifesta-se apenas como uma planta de milho. A semente da raiva tem a raiva como a sua natureza, não pode misturá-la com a semente da compaixão.

O quarto aspecto das sementes é vyakrta em sânscrito. Isso significa que a sua natureza como sadia, neutra ou não-sadia é determinada. Cada pensamento, palavra, ou acção que faz pode ser classificada também como neutra, sadia ou não-sadia.

A quinta característica é que as sementes estão sempre prontas para se manifestar quando as condições são boas. A manifestação de uma semente pode ser ajudada ou bloqueada por outras condições.

A sexta natureza das sementes é que as sementes sempre dão frutos. Uma semente traz o seu próprio fruto. Esta é a lei da retribuição. Um bom acto trará um bom resultado. Um discurso feliz e de compaixão trará um bom resultado. Assim a semente de milho manifesta-se apenas como uma planta de milho, e não outra coisa.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s