Oito pensamentos de Zygmunt Bauman

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O filósofo e sociólogo polaco Zygmunt Bauman morreu ontem segunda-feira (9), em Leeds, na Inglaterra aos 91 anos. O motivo da sua morte não foi tornado público.

Biografia

Era sem dúvida, um dos intelectuais mais importantes do século 20.  Nascido em Poznan, no oeste da Polónia, em 1925, Bauman fugiu do nazismo, ainda pequeno, com a família para a União Soviética. Lá, serviu na Segunda Guerra Mundial pelo Exército local. Mais tarde voltou à Polónia, onde foi professor da Universidade de Varsóvia. O que não durou muito. Destituído do posto, teve obras censuradas e foi expulso pelo Partido Comunista. Em 1968, deixou a Polónia  devido às perseguições anti-semitas. Mais tarde, renunciaria à sua nacionalidade e instalou-se em Tel Aviv, em Israel. Anos depois, fixou -se na Universidade de Leeds, na Inglaterra, onde desenvolveu a maior parte da sua carreira académica.

Enquanto “Cientista Social”.

Com uma visão crítica da realidade, Bauman era considerado um pessimista.

Uma das suas teorias mais conhecidas era a da “modernidade líquida” – que compreende um período de intensa mudança na humanidade: tudo que era sólido, liquidificou-se . Pelo conceito, afirmava-se que  “os nossos acordos são temporários, passageiros, válidos apenas até um novo aviso”.

A filosofia, a cultura, o individualismo, o avanço da desigualdade, a revolução digital, a efemeridade das relações a partir dessa revolução são algumas questões estudadas pelo pensador – que tornou-se uma figura de referência em diferentes campos do conhecimento.

A maioria dos livros de Bauman foi traduzida para o português.

O seu último título lançado em Portugal foi “A Riqueza de Poucos Beneficia Todos Nós?” , pelas mãos da Bertrand. Nele, o polaco  aborda as actuais consequências do neoliberalismo que triunfou na sociedade capitalista nos anos 80.

 

Oito pensamentos deixados pelo intelectual:

 

1) Sobre identidade e redes sociais

“A diferença entre a comunidade e a rede é que tu pertences à comunidade, mas a rede pertence a si. É possível adicionar e apagar amigos, e controlar as pessoas com quem se relaciona. Isso faz com que os indivíduos sintam-se um pouco melhor, porque a solidão é a grande ameaça nesses tempos individualistas. Mas, nas redes, é tão fácil adicionar e apagar  amigos que as habilidades sociais não são necessárias. Elas são desenvolvidas na rua, ou no trabalho, ao encontrar gente com quem se precisa ter uma interacção razoável. Aí tens que enfrentar as dificuldades, se envolver num diálogo […] As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Muita pessoaa as usam não para unir, não para ampliar os seus horizontes, mas ao contrário, para fecharem-se no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco das suas próprias vozes, onde o único que veem são os reflexos das suas próprias caras. As redes são muito úteis, oferecem serviços muito agradáveis , mas são uma armadilha.”

2) Sobre consumo e poder de escolha

“Numa sociedade sinóptica de viciados em comprar/assistir, os pobres não podem desviar os olhos; não há mais para onde olhar. Quanto maior a liberdade na tela e quanto mais sedutoras as tentações que emanam das vitrines, e mais profundo o sentido da realidade empobrecida, tanto mais irresistível torna-se o desejo de experimentar, ainda que por um momento fugaz, o êxtase da escolha. Quanto mais escolha parecem ter os ricos, tanto mais a vida sem escolha parece insuportável para nós.”

3) Sobre o sofrimento mediado pelo consumo

“Algum tipo de sofrimento é um efeito colateral da vida numa sociedade de consumo. Numa sociedade assim, os caminhos são muitos e dispersos, mas todos eles levam às lojas. Qualquer procura existencial, e principalmente a busca da dignidade, da autoestima e da felicidade, exige a mediação do mercado.”

4) Sobre redes sociais e privacidade

“Os adolescentes equipados com confessionários eletrónicos  portáteis são apenas aprendizes treinando e treinados na arte de viver numa sociedade confessional – uma sociedade notória por eliminar a fronteira que antes separava o privado e o público, por transformar o acto de expor publicamente o privado numa virtude e num dever público (…)”

5) Sobre globalização e uma humanidade interligada

“Nós somos responsáveis pelo outro, estando atento a isto ou não, desejando ou não, torcendo positivamente ou indo contra, pela simples razão de que, no nosso mundo globalizado, tudo o que fazemos (ou deixamos de fazer) tem impacto na vida de todo mundo e tudo o que as pessoas fazem (ou se privam de fazer) acaba afectando as nossas vidas.”

6) Sobre a pós-modernidade globalizada

“Na hierarquia herdada dos valores reconhecidos, a ‘síndrome consumista’ destronou a duração, promoveu a transitoriedade e colocou o valor da novidade acima do valor da permanência.”

7) Sobre relacionamentos num mundo individualista

“No nosso mundo de furiosa individualização, os relacionamentos são bençãos ambíguas. Oscilam entre o sonho e o pesadelo, e não há como determinar quando um se transforma no outro. Na maior parte do tempo, esses dois avatares coabitam – embora em diferentes níveis de consciência. No líquido cenário da vida moderna, os relacionamentos talvez sejam os representantes mais comuns, agudos, perturbadores e profundamente sentidos da ambivalência.”

8) Sobre relacionamento e riscos

“Não se deixe apanhar. Evite abraços muito apertados. Lembre-se de que, quanto mais profundas e densas são as suas ligações, maiores serão os seus riscos. (…) E lembre-se, claro, de que apostar todas as suas fichas num só número é a máxima insensatez!”

Fonte: Entrevistas/Modernidade Líquida/Vida Líquida

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