Mindfulness é (também) na sala de aulas

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Estudo mostra que mindfulness desenvolve memória, capacidade de organização, leitura e cálculo, ao mesmo tempo que dá à criança ferramentas para esta lidar com o stress tóxico.

Com apenas quatro anos, a pequenina Faith já acredita que o poder da respiração a pode ajudar na sua aprendizagem. Ela sente que o simples acto de respirar a consegue ajudar a concentrar-se no cumprimento das suas tarefas. Faith frequenta a Momentous School, um programa educativo do Momentous Institute, uma organização que há 97 anos se dedica à saúde socioemocional de crianças e famílias. A instituição tem vindo a acompanhar o progresso de crianças há quase vinte anos, reunindo um significativo acumular de dados, os quais mostram os efeitos positivos da incorporação do mindfulness na área do ensino. Faith e os seus amigos têm vindo a aprender algumas habilidades que a investigação científica mostra poder fornecer-lhes uma protecção a longo prazo contra aquilo que já é considerado como uma das mais sérias – e em crescimento acelerado – ameaças ao bem-estar infantil: o stress tóxico.

Como o stress tóxico impede
um desenvolvimento saudável da criança

O stress tóxico constitui uma activação prolongada da resposta ao stress (sem o ‘amortecedor’ das relações de segurança). Em conjunto com as experiências adversas na infância (ACES, sigla em inglês), como a pobreza, o abuso infantil e a violência doméstica, entre outras, está em franco crescimento. Segundo o dr. Robert Block, antigo presidente da Academia Americana de Pediatria, a sua convicção é que as ACES “são, hoje, a maior ameaça de saúde pública, ainda por resolver”, nos Estados Unidos.

Existem cada vez mais evidências científicas, como o trabalho desenvolvido pelo Center for the Developing Child, da Universidade de Harvard, a mostrar que o stress tóxico pode impedir um desenvolvimento saudável, modificando literalmente o cérebro da criança e afectando a sua capacidade de absorção até mesmo do melhor sistema de ensino. O mindfulness constitui, por isso, um muito necessário ‘salva-vidas’ num quadro, por si só, bastante conturbado.

Embora, infelizmente, o trauma infantil não constitua uma novidade, a ciência hoje conhece melhor o seu impacto no funcionamento do cérebro. O que acontece, no essencial, é que durante uma experiência stressante a amígdala ‘rapta’ o córtex pré-frontal impedindo a sua capacidade de actuação. Por outras palavras, a parte do nosso cérebro responsável pela resposta ‘luta, fuga ou congelamento’ assume o comando e bloqueia a parte do nosso cérebro capaz de processar pensamentos mais complexos, antecipando consequências e condicionando o comportamento.

Para dizer o óbvio, há que intervir a montante para prevenir, antes de tudo, as experiências adversas na infância. Um estudo recente nos EUA calculou a poupança representada a longo prazo pelos programas de saúde socioemocionais no ensino elementar, tendo estimado uma relação investimento/retorno de 11:1, isto é, por cada dólar investido nesses programas haveria um benefício médio de 11 dólares em poupança.

Como se reflecte o mindfulness
nos resultados académicos

A ciência explica porque é que isto resulta. Estudos mostram que o mindfulness reduz o tamanho da amígdala e a espessura do córtex pré-frontal. Segundo o dr. Richie Davidson, a prática da atenção plena reforça as ligações entre áreas do cérebro ligadas à atenção e concentração, o que faz enfraquecer a capacidade da amígdala de ‘raptar’ as partes do cérebro responsáveis pelo pensar.

Tendo este facto presente, é fácil entender porque o mindfulness e a autorregulação se podem traduzir numa melhoria do desempenho académico. Embora esta seja uma verdade transversal a todas as crianças, ela é particularmente importante naquelas mais vulneráveis, obrigadas a enfrentar diversas situações de ACES.

Ainda é escasso o número de estudos de grande escala capazes de confirmar o papel do mindfulness na melhoria da trajetória de vida da criança. Existe, no entanto, um robusto número de evidências sobre os benefícios da atenção plena em adultos. Esperemos, pois, que seja apenas uma questão de tempo até que haja um corpo alargado de investigação sobre o impacte do mindfulness na criança e que esses estudos se tornem disponíveis.

O Momentous Institute publicou um dos dois estudos existentes nos EUA sobre o impacto da prática de mindfulness na autorregulação e desenvolvimento académico em crianças em idades pré-escolar e primária. Esta investigação aponta para que os alunos do pré-primário que tiveram mindfulness no seu currículo anual apresentaram melhor desempenho ao nível da capacidade de memória e planeamento e organização do que os apresentados pelo grupo de controlo. Ao nível do primeiro ano do primário, as crianças pertencentes ao grupo mindfulness obtiveram melhores valores numa avaliação sobre vocabulário/literacia em comparação ao respectivo grupo de controlo.

Uma outra investigação na Momentous School mostrou que após três anos de participação em práticas mindfulness, os níveis de empatia em alunos do 5º ano prediziam as suas classificações em trabalhos de leitura e cálculo. O que isto nos diz é que o mindfulness não apenas ajuda a criança a se sentir melhor e mais calma, como também incrementa a sua capacidade de desempenho académico.

Mindfulness para crianças
não é uma ‘roupa’ de tamanho único

Uma coisa é certa, quando se trata de assuntos tão complexos como educação e trauma, não existem soluções mágicas. O mindfulness apenas se consegue desenvolver em escolas onde um clima social positivo seja prioridade. Mais, a atenção plena nunca se poderá resumir a uma matéria meramente curricular. É um trabalho que apenas poderá adquirir raízes de forma sustentável se o sistema adoptar um compromisso em relação a práticas consistentes e ao bem-estar de todos os envolvidos: crianças e adultos.

Inserir o mindfulness no ensino constitui um passo importante. Por si só, no entanto, nunca será suficiente para fazer face ao stress tóxico e às experiências adversas na infância. As questões sistémicas por detrás dos aumentos dos níveis de stress (pobreza, racismo, sexismo, violência e iniquidade) devem ser tratadas com coragem e convicção.

Ao dar prioridade a estas questões sistémicas, acompanhando-as com uma real integração do mindfulness, poderemos providenciar um sentido de controlo e de oportunidade para que a criança possa atingir todo o seu potencial. Acreditamos que o mesmo respirar que ajudou a pequena Faith a aprender o alfabeto pode constituir a ‘porção mágica’ para uma prosperidade de longo prazo para as nossas crianças e sociedade.

Fonte: Michelle Kinser – Mindful.org

Tradução: Mindmatters

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