A Meditação na Escola

kids_meditation

No quadro negro da escola portuguesa há uma palavra escrita em maiúsculas: INFELICIDADE. Rezam recentes relatórios que variadas razões concorrem para o desconforto da geração de infantes, marcados por desvios, débitos e insucessos: do bullying ao assédio sexual, da violência verbal, e não só, entre géneros, à desobediência face ao docente, da bulimia à privação do sono e do alimento, dislexias, défices de atenção e hiperatividade, esta tão generosamente distribuída pelo país jovem. Nesta síndrome, os números são de estarrecer: 5 milhões de doses diárias de “ritalina” tomadas pelas crianças portuguesas até aos 15 anos, que vai domando perturbações comportamentais, deixando no quarto escuro não menos ameaçadores projetos de “zombies” em larga escala…

E contudo… – retomando o suposto murmúrio de Galileu ante os seus juízes – há alternativas possíveis, testáveis, ao menos, para prover um apaziguamento deste torvelinho de relações e atitudes desviantes em ambiente de ensino. Uma prática, ou exercício, se quisermos – meditação na escola – vem ganhando força e forma em países europeus e fora do Velho Continente, em comunidades do “primeiro mundo” em matéria pedagógica.

A meditação na escola vem sendo praticada nos EUA e Canadá e, desde 2012, está instaurada oficialmente na Bélgica, Países Baixos e Suécia, países na linha da frente desta terapia. Na Grã-Bretanha e França, em escolas de Aixe-en-Provence e Pas-de-Calais, ensaiaram-se igualmente os primeiros passos. Os benefícios parecem evidentes e indiscutíveis, com a sustentação científica das ciências cognitivas e pedagógicas. A sensibilidade anglo-saxónica e nórdica assume-se mais aberta a estas alternativas terapêuticas: nos EUA, a meditação é aplicada em centenas de hospitais na gestão do stress e nos cuidados paliativos do cancro terminal. Este é outro domínio que muito nos alongaria.

Sem equívocos, a meditação de que se fala é uma estratégia de laicidade, e não uma caricatura de pseudo-New Age, tal como se exige a um qualquer Estado secular, algo que não é despiciendo e tem motivado algum debate em França, berço da racionalidade. Uma questão sensível revê-se na escolha da pauta de recursos, a dirimir entre as esferas pública e privada. Na pátria de Voltaire, neurocientistas, médicos e pedagogos concordam nesta tese, acima das opções: a meditação favorece a atenção da criança e promove o seu bem-estar. A meditação laica – ou plena consciência (mindfulness), proposto nos anos de 1970 pelo psicólogo Jon Kabat-Zinn, do prestigiado MIT – poderá ser mais do que uma moda passageira, concorrendo em paralelo com o desenvolvimento da psicologia positiva e a recuperação do pensamento simbólico de C. J. Jung.

Desta via nos apercebemos em 2001, quando da presença entre nós de Mathieu Ricard, biólogo molecular e monge budista, conselheiro do Dalai Lama, e que tivemos a grata oportunidade de convidar para o programa científico do “Porto, Capital Europeia da Cultura”. Já então o citado investigador tivera ocasião de divulgar alguns dados científicos sobre os benefícios da meditação, sem sombra de pretensão em matéria de proselitismo religioso. Um estudo da Universidade de Harvard, de 2005, revelava alterações do córtex cerebral pré-frontal esquerdo – a região implicada nos processos cognitivos, emocionais e do bem-estar – nos indivíduos praticantes da meditação plena.

Sabe-se bem da mundividência do ioga enquanto componente destas práticas, mas não se requer neste cenário uma linha teórica unívoca. Sobrarão variantes e novas soluções geridas em função da diversidade dos problemas em sala de aula e dos sujeitos em causa.

Adquiridos são os efeitos sobre a atenção, a concentração e, por outro lado, nas relações interpessoais – apaziguamento, diminuição da violência – introduzindo a calma e diminuindo a tensão. E saber que tudo pode começar a mudar pela respiração, básico suporte da vida…

Autor: Joaquim Fernandes – Historiador

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s