Budismo e a busca da Felicidade: “Foi como se tivesse chegado a casa”

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O budismo é uma religião não-teísta, que se debruça sobre as principais aspirações humanas. A felicidade é uma delas. Margarida Cardoso, responsável pelo Centro Budista do Porto, e Tsering Paldron, autora do livro “O Hábito da Felicidade”, explicaram a importância de uma felicidade genuína, duradoura, ao invés de momentânea.

A procura pela felicidade é uma das principais ambições humanas e tem especial importância para os budistas, que acreditam que esta deve depender de factores internos, nunca externos, porque não é possível controlá-los.

Tsering Paldron e Margarida Cardoso têm histórias de vida diferentes, mas com algo em comum, o budismo – mais do que uma religião, uma maneira de estar na vida.

Tsering Paldron nasceu em Lisboa e é budista há 44 anos. Em 1973, emigrou para a Bélgica, onde se cruzou com um Lama tibetano e se apercebeu que o budismo respondia às suas inquietações. Vinte e três anos depois, regressou ao país de origem e veio para o Porto, onde deu seguimento à carreira de professora, profissão que concilia com a escrita.

Para a escritora ser budista implica que se aceite a escolha feita e se aprenda a lidar com alguns hábitos mentais mais nefastos com os quais, por vezes, se convive há anos.

Margarida Cardoso é budista há 33 anos e, actualmente, é responsável pelo Centro Budista do Porto e pelo projecto Centro de Meditação Dhyana. Para além disso, é formadora e instrutora de meditação.

A professora iniciou o seu percurso no budismo quando se viu no meio de uma insatisfação na adolescência, de uma procura de respostas – que a satisfizessem – a questões que julgava fundamentais. “Porque é que há uns que sofrem tanto? O que é a vida? A morte?” Estas eram algumas das perguntas para as quais não encontrava conclusões que lhe fizessem sentido.

Margarida Cardoso contou que as coisas mudaram quando leu um texto budista pela primeira vez. “Foi como se tivesse chegado a casa”, concluiu.

Tanto Tsering Paldron como a responsável pelo Centro de Meditação Dhyana classificam o budismo como “uma religião não-teísta, que se debruça sobre as principais aspirações dos seres humanos”, como a busca da felicidade, que julgam não poder ser esquecida: “Todos procuram ser felizes. A questão também está em procurar o que é a felicidade duradoura, genuína”, diz Margarida Cardoso.

Mas o que é a felicidade para um budista?

Para um budista, a felicidade é “uma capacidade de usufruir do presente. É uma profunda empatia com tudo o que o rodeia – seres e natureza – e uma vida com sentido”, defendeu Tsering Paldron.

O budismo procura ensinar a alcançar a felicidade duradoura, “uma felicidade que não depende de factores externos, mas unicamente de nós mesmos”, continuou a escritora, que revelou que o livro “O Hábito da Felicidade” é para as pessoas que entendem isto.

“Parar é muito importante. As pessoas andam a correr. Têm de apreciar as coisas que estão à volta”

O livro é sobre a ideia de que “a felicidade é um hábito que se pode adquirir, cultivar e partilhar, embora necessite de condições para se desenvolver. Precisa de dedicação e empenho”, adverte Tsering Paldron.

Afirmar que a felicidade é uma escolha virou moda, na opinião da autora, que, apesar disso, frisou como “é fácil constatar que não basta carregar em um botão para sermos felizes para sempre”.

É preciso “uma higiene de vida” que facilita o processo já que “o corpo e a mente se sustentam mutuamente”. Segundo a professora budista, “temos de começar por reunir condições de vida mais saudáveis e harmoniosas”.

Margarida Cardoso explicou que a chave é encontrar “um equilíbrio, uma serenidade”, ao mesmo tempo que esclareceu que essa é também a principal dificuldade. “Como encontramos serenidade? Tem de haver escolhas pessoais. Parar é muito importante. As pessoas andam a correr. Têm de apreciar as coisas que estão à volta. Apreciar o presente”, desvendou.

“Pensar no passado, no que passou, impede-nos de desfrutar do que está a acontecer no momento, de usufruir mais da vida”, concluiu a responsável pelo Centro Budista do Porto.

Tsering Paldron e Margarida Cardoso concordam que a meditação é uma ajuda para alcançar a felicidade. Para a escritora, através deste método pode reconhecer-se os padrões de comportamento infelizes e substituí-los por outros mais positivos.

As pessoas nem sempre sabem o que é a meditação, revelou Margarida Cardoso. Trata “daquilo que somos naturalmente. É ir a esse lado intrinsecamente tranquilo e calmo, mas que também é altruísta e sábio”, explicou.

O problema, avançou a instrutora de meditação, é que as pessoas não sabem aquilo que são naturalmente. Margarida Cardoso explicou que é comum uma pessoa dizer que é ansiosa, mas sublinhou que ninguém “é ansiedade”.

“Não é possível, não somos ansiedade, mas estamos realmente confundidos. Apanhamos com tudo à nossa volta e desenvolvemos também hábitos”, expôs Margarida Cardoso. Ao mesmo tempo realçou a importância de “percebermos que não somos as nossas emoções”.

O budismo não se trata de “estar preparado para sofrer, mas sim de aceitar que há sofrimento”

As pessoas reagem de acordo com hábitos que estão nelas há muito tempo, por vezes, desde a infância, pelo que não é necessário trabalhar para ser algo que já somos, mas sim para deixar algo que não somos. “A meditação leva a este caminho de nos reconhecermos”, concluiu a responsável pelo Centro Budista do Porto.

A meditação não é, contudo, a única forma de atingir a felicidade, clarificou Tsering Paldron. No budismo existem “inúmeras ferramentas que nos permitem desenvolver os pensamentos e as emoções positivas que substituem naturalmente os negativos”.

O budismo e o sofrimento

O sofrimento é muitas vezes associado ao budismo, mas é este essencial para alcançar a felicidade? Margarida Cardoso pensa que não.

“Não considero que o sofrimento seja necessário, mas às vezes parece que funciona como uma forma de nos fazer agir e procurar outra coisa”, completa. A responsável pelo Centro Budista do Porto esclareceu que, em certos casos, “pode surgir como uma forma de fazer avançar, crescer. Leva a questionar sobre o que é essencial. Não quer dizer que seja para toda a gente”, explicou.

O budismo, contudo, não se trata de “estar preparado para sofrer, mas sim de aceitar que há sofrimento”, explicou Margarida Cardoso. No entanto, quem pratica desenvolve resiliência e tem mais paciência, porque sabe que há coisas que inevitavelmente vão acontecer, concluiu.

“O sofrimento pode tornar-nos pessoas melhores, mas não é necessariamente assim”, frisou Tsering Paldron. O sofrimento, uma vez superado, também nos pode tornar pessoas amargas e revoltadas. No entanto, se o aceitarmos abertamente também nos pode tornar melhores pessoas, adiantou.

De acordo com a escritora, uma aceitação do sofrimento implica reconhecer que algo não está bem e aceitar a dor permite “conhecê-la melhor e explorá-la nos seus diversos aspetos, vendo-a sob vários ângulos”.

Margarida Cardoso lembrou que, normalmente, “as pessoas não gostam da palavra aceitação, porque pensam nela como uma resignação. Têm a ideia de que não há acção, que se cruza os braços e não é o que acontece na realidade”.

“Na verdade, a não-aceitação é que cria bloqueio. A partir do momento em que aceito, isso pode dar inspiração”, rematou.

Fonte: Artigo original do JPN

Créditos: Maria Branca Ramos, Sofia de Brito, Filipe Rodrigues Ferreira, Patrícia Santos. Foto de Filipe Rodrigues Ferreira. Artigo editado por Filipa Silva. Artigo integra uma edição especial preparada sob a coordenação editorial de Joana Beleza aquando da sua passagem pela redacção do JPN como Editora por um dia.
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