Dalai Lama: Precisamos de uma Ética Global e Secular

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Quando o presidente dos Estados Unidos diz “América primeiro”, ele está deixando os seus eleitores felizes. Eu posso entender isso. Mas, de uma perspectiva global, esta afirmação não é relevante. Tudo está interligado hoje. A nova realidade é que todos são interdependentes com todos os outros. Os Estados Unidos são uma nação líder do mundo livre. Por esta razão, exorto o seu presidente a pensar mais sobre questões de nível global. Não há limites nacionais para a protecção climática ou a economia global. Sem fronteiras religiosas, tampouco. Chegou a hora de entender que somos os mesmos seres humanos neste planeta. Quer desejamos ou não, devemos coexistir. A história nos diz que quando as pessoas perseguem apenas od seus próprios interesses nacionais, há conflitos e guerras. Isso é míope e estreito. Também é irreal e desactualizado. Viver juntos como irmãos e irmãs é o único caminho para a paz, a compaixão, a atenção plena e mais justiça. A religião pode até certo ponto ajudar a superar a divisão. Mas a religião sozinha não será suficiente. A ética secular global é agora mais importante do que as religiões clássicas. Precisamos de uma ética global que possa aceitar crentes e não crentes, inclusive ateus. O meu desejo é que, um dia, a educação formal atente sobre a educação do coração, ensinar amor, compaixão, justiça, perdão, atenção plena, tolerância e paz. Esta educação é necessária, desde o jardim de infância até o ensino médio e as universidades. Quero dizer aprendizagem social, emocional e ética. Precisamos de uma iniciativa mundial para educar o coração e a mente nesta era moderna. Actualmente, os nossos sistemas educacionais são orientados principalmente para valores materiais e treino de compreensão. Mas a realidade nos ensina que não chegamos a raciocinar através do entendimento sozinho. Devemos colocar maior ênfase nos valores internos. A intolerância leva ao ódio e à divisão. Os nossos filhos devem crescer com a idéia de que o diálogo, e não a violência, é a melhor e mais prática maneira de resolver conflitos. As novas gerações têm uma grande responsabilidade para garantir que o mundo se torne um lugar mais pacífico para todos. Mas isso só pode se tornar realidade se educarmos, não apenas o cérebro, mas também o coração. Os sistemas educacionais do futuro devem dar maior ênfase ao fortalecimento das habilidades humanas, como a coragem, o senso de unidade, a humanidade e o amor. Vejo com maior clareza que o nosso bem-estar espiritual não depende da religião, mas da nossa natureza humana inata – a nossa afinidade pela bondade, a compaixão e o cuidado dos outros. Independentemente de pertencer a uma religião, todos nós temos uma fonte fundamental e profundamente humana de ética dentro de nós mesmos. Precisamos de nutrir essa base ética compartilhada. A ética, em oposição à religião, é fundamentada na natureza humana. Através da ética, podemos trabalhar na preservação da criação. A empatia é a base da convivência humana. Creio que o desenvolvimento humano depende da cooperação e não da concorrência. A ciência nos diz isso. Devemos aprender que a humanidade é uma grande família. Todos somos irmãos e irmãs: fisicamente, mentalmente e emocionalmente. Mas ainda estamos concentrando-nos demais nas nossas diferenças em vez das nossas semelhanças. Afinal, cada um de nós nasce da mesma maneira e morre da mesma maneira.

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Relíquias do Buda teriam sido encontradas na China

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No que poderia ser uma descoberta extremamente significativa para os budistas de todo o mundo, arqueólogos na China descobriram uma antiga caixa de cerâmica contendo restos humanos cremados e que traz uma inscrição dizendo que pertencem ao Buda, também conhecido como Sidarta Gautama.

Sidarta Gautama, mais conhecido como o Buda ou “Iluminado”, é provavelmente um dos indivíduos mais influentes que proveio da Índia, particularmente por meio da fundação e difusão do budismo. Acredita-se ele que tenha vivido e ensinado principalmente na parte oriental da antiga Índia, entre os séculos 6º e 4º a.C.

De acordo com o Mahaparinibbana Sutta do cânone Pali, aos 80 anos, o Buda anunciou que ele em breve alcançaria o Parinirvana, ou o estado imortal final, e abandonaria o seu corpo terrestre.

Após a sua morte, as relíquias da cremação do Buda teriam sido divididas entre oito famílias reais e seus discípulos. As lendas dizem que, séculos depois, elas foram consagradas pelo rei Ashoka em 84 mil stupas (estruturas elevadas, contendo relíquias, que são usadas como lugares de meditação).

Mas parte significante dos restos foi supostamente levada para outros países.

Cerca de 1.000 anos atrás, dois monges, chamados Yunjiang e Zhiming, passaram duas décadas reunindo os restos do Buda, distribuídos pela Índia e outros países.

O periódico Live Science informou que a caixa recentemente descoberta, que foi desenterrada no condado de Jingchuan, na China, tinha uma inscrição datada de 22 de junho de 1013, que dizia:

“Os monges Yunjiang e Zhiming da Escola de Lótus, que pertencia ao Templo Mañjuśrī do Mosteiro Longxing na região de Jingzhou, reuniram mais de dois mil fragmentos de śarīra [relíquias cremadas do Buda], bem como os dentes e os ossos do Buda, e enterraram-nos no Salão Mañjuśrī deste templo.”

“Para promover o budismo, eles decidiram colecionar śarīra [relíquias budistas]. Para atingir esse objectivo, ambos praticaram as instruções do budismo durante cada momento de suas vidas por mais de 20 anos. Às vezes, eles receberam o śarīra das doações dos outros; às vezes, eles o encontraram por acaso; às vezes, eles o compraram de outros lugares; e, às vezes, outros lhes deram o śarīra para demonstrar sua sinceridade.”

De acordo com Live Science, os arqueólogos identificaram restos humanos cremados dentro da antiga caixa de cerâmica e, embora seja impossível dizer com certeza que são de facto os restos de Sidarta Gautama, a inscrição de mil anos de idade certamente sugere que este é o caso.

A descoberta foi feita pela primeira vez em dezembro de 2012, quando um grupo de aldeões estava reparando algumas ruas. Após anos de escavações arqueológicas no local, o achado historicamente significativo foi revelado em chinês em 2016. Mas a descoberta só foi divulgada pela primeira vez ao mundo na revista de língua inglesa Chinese Cultural Relics.

Via Epochtimes com Ancient Origins

Conto: “Flor de Lótus”

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Buda reuniu os seus discípulos, e mostrou-lhes uma flor de lótus – símbolo da pureza, porque cresce imaculada em águas pantanosas.

– Quero que me digam algo sobre isto que tenho nas mãos – perguntou Buda.

O primeiro discípulo fez um verdadeiro tratado sobre a importância das flores.

O segundo discípulo compôs uma linda poesia sobre suas pétalas.

O terceiro discípulo inventou uma parábola usando a flor como exemplo.

Chegou a vez de Mahakashyao. Este aproximou-se de Buda, cheirou a flor, e acariciou o seu rosto com uma das pétalas.

– É uma flor de lótus – disse Mahakashyao. Simples e bela.

– Você foi o único que viu o que eu tinha nas mãos – disse Buda.

“Separar dói, mas pode ser uma benção”

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É possível separar-se de alguém com respeito e com ternura.

É possível um divórcio verdadeiramente amigável.

Mas para isso é preciso que as duas pessoas envolvidas no processo de desfazer um laço de intimidade tenham amadurecido o suficiente para conhecerem-se a si mesmas.

Caminhamos lado a lado com algumas pessoas em alguns momentos da vida.

A minha professora de hatha ioga, Walkiria Leitão, comentou numa das nossas aulas:

“A vida é como atravessar uma ponte. Nem sempre as pessoas com quem iniciamos a travessia são as mesmas que nos cercam agora ou com quem chegaremos do outro lado. Mas sempre há alguém por perto. Nunca estamos sós.”

O medo da solidão, muitas vezes, faz com que as pessoas suportem o insuportável. Ou se lamentem após uma separação, apegadas até mesmo ao conflito conhecido.

Ainda há mulheres que sofrem violências morais e até mesmo físicas de seus companheiros ou companheiras.

Ainda há homens que sofrem violências morais e até mesmo físicas das suas companheiras ou companheiros.

Como dar limites? Como conhecer esses limites?

Quando os limites são desrespeitados, as dificuldades começam. Dificuldades que podem levar à separação e ao divórcio. Dificuldades que podem levar ao sofrimento de filhos e filhas, animais de estimação, amigos, familiares.

Caminhamos lado a lado.

Ou não.

Quando nos afastamos e nos distanciamos, nunca é repentino.

Um processo que, se desenvolvermos a clara percepção da realidade do assim como é, poderemos prever, antecipar e até mesmo alterar o desenvolvimento do processo.

Entretanto, se não conseguirmos antever o que já acontece, se colocarmos lentes fantasiosas sobre a realidade, poderemos nos desiludir e nos sentirmos traídos na confiança mais íntima do ser.

Professor Hermógenes, um dos pioneiros do yoga no Brasil, fala sobre a criação de uma nova religião chamada “desilusionismo”:

“Cada vez que temos uma desilusão estamos mais perto da verdade, por isso agradecemos.”

Se teve uma desilusão é porque não estava em plena atenção. Mas não fique com raiva nem de si nem da outra pessoa.

Nada é fixo. Nada é permanente.

Saber abrir mão, desapegar-se – até da maneira como tem vivido – é abrir novas possibilidades para todos.

Para que sofrer? Para que manter relações estagnadas ou de conflito permanente? Ou como transformar essas relações e dar vida nova ao relacionamento?

Apreciar e compreender a vida em cada instante é uma arte a ser praticada.

Separar-se dói, confunde, mexe com sonhos e estruturas básicas de relacionamentos.

Separação pode ser também uma bênção, uma libertação de uma fantasia, de uma ilusão.

Observe em profundidade.

Será que ainda é possível restaurar o vaso antigo?

No Japão, as peças restauradas são mais valiosas do que as novas. Tem história, emoção, sentimento.

Cuidado com o eu menor.

Cuidado com sentimentos de rancor, raiva, vingança.

Esse sentimentos destroem-no a si, mais do que as outras pessoas.

Desenvolva a mente de sabedoria e de compaixão.

Queira o bem de todos os seres. Isso inclui a sua pessoa.

Cuide-se bem e aprecie a sua vida – assim como é –, renovando-se a cada instante e abrindo portais para o desconhecido, o novo – que pode ser antigo, mas novo a cada instante.

Mantenha viva a chama do amor incondicional e saiba se separar (se assim for) com a mesma ternura e respeito com que se uniu.

Esse o princípio de uma cultura de paz e de não violência activa.

Que assim seja, para o bem de todos os seres.

Mãos em prece

Monja Coen

10 Regras de vida do Dalai Lama

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De vez em quando, todos nós precisamos de um pouco de conselhos para a vida. Às vezes nós procuramos o conselho dos nossos pais, por vezes, dos nossos amigos, e às vezes até mesmo procurar aconselhamento de fóruns online.

Mas não é grande para receber conselhos para a vida do próprio Dalai Lama?

Este é um homem, afinal, que respondeu a Oprah Winfrey quando ela perguntou se ele já tinha tinha que perdoar a si mesmo para qualquer coisa, dizendo que, “A minha atitude para com os mosquitos não é muito favorável, não muito tranquila. Percevejos também “.

Foi uma resposta surpreendente para a Oprah. O Dalai Lama, de facto, promove o perdão e compaixão acima de tudo.

Mas que outras regras de vida que ele ensina? Vamos ler.

1. Seja amável e sempre ajudar os outros

O Dalai Lama diz: “Esta é a minha religião simples. Não há necessidade de templos; não há necessidade de filosofia complicada. O nosso próprio cérebro, o nosso próprio coração é o nosso templo; a filosofia é a bondade.”

Ser gentil com os outros não é exactamente difícil; na verdade, ele é muito fácil e não custa nada. No entanto, as recompensas que colher o nosso substancial, como sendo gentil com os outros nos faz mais felizes e mais positivos enquanto pessoas. Ainda melhor, também ajuda a preencher a vida dos outros com a felicidade também.

2. Encontrar Felicidade – Acima de tudo

O Dalai Lama ressalva que o grande propósito das nossas vidas é estar feliz. Infelizmente, este efeito é muito facilmente perdido, à medida que trabalhamos mais e mais horas. Vivemos uma vida altamente stressante e, como tal, a felicidade nem sempre está na vanguarda das nossas mentes.

E quando perseguimos a felicidade, canalizamos as nossas energias para baixo,  nos caminhos errados. Em vez de ter compaixão, ser gentil e saber perdoar, olhamos para a felicidade através de bens materiais.  O Dalai Lama diz que estas são soluções de curto prazo.

3. Estar aberto a mudanças, mas mantendo os seus valores

O Dalai Lama insiste que, como seres humanos, devemos estar abertos à mudança. Temos de abraçar novas ideias e paixões.

Ao mesmo tempo, porém, é importante manter o nosso sistema de ética pessoal. Abraçando novas ideias não é o mesmo que deixar para trás os nossos valores, e este é um ponto importante para fazer e reiterar.

4. Aprenda com os seus fracassos

Tal como os empresários bem sucedidos, Sua Santidade sabe que o fracasso é apenas algo que acontece a todos. Todos nós iremos falhar em algum ponto ou noutro.

Mas ao invés de enrolarmo-nos numa bola, e criar habituação sobre essas falhas e chamando-nos falhado, devemos aprender com eles. Devemos usá-los como uma oportunidade para crescer e melhorar a nossa sorte. Falhas existem para nos mostrar o que fizemos de errado na primeira vez; a chave é melhorar numa segunda vez.

5. Não prejudicar as outras pessoas

O Dalai Lama ensina que não devemos prejudicar os outros, nem com o nosso ciúme, amargura ou raiva. Ele diz: “Se puder, ajude os outros; senão pode fazer isso, pelo menos não prejudique”.

E ele está certo. Prejudicar as pessoas só vai voltar para assombrá-lo, e trará com um pacote inteiro de negatividade. Nós não estamos falando de um par de rumores espalhados em torno de si; estamos falando de uma espécie de turbilhão negativo. Mentindo sobre os outros, criar rumores ou ir pelo caminho do assédio moral, não é bom para o espírito.

6. Passe algum tempo sozinho

Muitos de nós dizemos que somos pessoas sociais que não podemos suportar a solidão. Nós podemos ficar aborrecidos, deprimidos e só queremos chamar os nossos amigos.

Mas para o Dalai Lama e os seus seguidores, um pouco de solidão cada dia é essencial para a promoção de um espírito saudável. Passar algum tempo sozinho permite-lhe recarregar as baterias, refrescar a mente, e reflectir sobre o que acaba de passar e o que tem que vir. Todos nós precisamos deste “tempo pensando”, e sem ele a vida passa numa corrida louca.

7. Trabalhe nas suas amizades

No nosso mundo agitado, pode ser fácil negligenciar as amizades. Especialmente se possuir um amplo círculo de amigos e uma vida de trabalho ocupada, encontrar algum tempo para pôr de lado para os seus amigos pode parecer impossível.

Mas o Dalai Lama ensina que as amizades não devem ser negligenciadas ou subestimadas. Uma vez que começarmos a negligenciar as nossas amizades, estamos num caminho para a solidão. E isso pode acontecer mais cedo do que pensamos. Solidão não é um bom lugar para estar, por isso é importante que arranje tempo para trabalhar nas suas amizades.

8. É preferível negociar do que discutir.

O Dalai Lama disse: “A não-violência significa diálogo, usando a nossa língua, a linguagem humana. O diálogo significa compromisso; respeitar os direitos uns dos outros; no espírito da reconciliação não é uma solução real para o conflito e discórdia. Não há vencedor cem por cento, nem cem por cento perdedor, não dessa forma, mas metade-metade. Essa é a maneira prática, a única maneira “.

A chave para uma resolução, então, não é a guerra ou a amargura, a luta constante, mas sim a comunicação. O diálogo. Falando sobre as coisas. Sua Santidade tem-no que quando se fala sobre as coisas que devemos estar atentos para não cavar o passado, mas para manter o foco no presente. Desenterrar o passado apenas agrava uma sensação de amargura e traição.

9. Siga os três Rs

Os três Rs são:

  • Respeito por si próprio
  • Respeito pelos outros
  • Responsabilidade por suas acções

Auto-estima é a base de uma boa vida. Se você não respeitar-se a si mesmo, tudo o que fizer será contaminado. Por exemplo, se possui um negócio, mas não tem auto-estima, a sua empresa vai operar pela mesma lógica. Vai-se degradando, piorar a qualidade e finalmente ser mal sucedida.

10. Silêncio é seu amigo

O som do silêncio é música para os ouvidos de Sua Santidade, e ele deve ser música para seus ouvidos também. Veja, às vezes é melhor apenas para manter as nossas bocas fechadas e dizer mais nada. Mesmo se nós realmente quer dizer a alguém o que realmente pensa deles, é melhor ficar quieto. Selar os lábios!

E se os pais também praticassem Mindfulness?

O livro clássico da “parentalidade consciente” está, pela primeira vez, em português. A obra da dupla Myla e Jon Kabat-Zinn é um guia de para pais e não só. E estas são as suas ideias principais.

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A primeira versão do livro foi escrita na década de 1990. Eram poucas as obras que, então, abordavam a “experiência interior da parentalidade”, pelo que o termo “parentalidade consciente” surgiu, pela primeira vez, impresso nas suas páginas. Quase 20 anos depois, a dupla de autores Myla e Jon Kabat-Zinn publicou, em 2014, uma versão actualizada de Pais Conscientes, Filhos Felizes (editora Lua de Papel), que só agora chega traduzida ao mercado português.

De uma forma resumida, este pode ser encarado como um guia de inteligência emocional para pais e, sobretudo, um livro de mindfulness, que deixa a descoberto a forma de educar os filhos na perspectiva do presente. Educá-los em tempo real, digamos assim, é uma ferramenta essencial para que pais e mães vejam os filhos pelo que realmente são e não pelo que gostariam que fossem.

Em jeito de compilação, reunimos algumas das ideias fundamentais apresentadas no livro.

Mindfulness quer dizer consciência. (…) Quando trazemos consciência para a forma de criarmos os filhos, mediante o recurso à atenção plena enquanto prática, isso pode levar a um conhecimento e entendimento mais profundos tanto dos nossos filhos como de nós mesmos. “Pais Conscientes, Filhos Felizes”, pág. 42

Recordemos: O que é o Mindfulness?

A obra em causa discursa ao longo de 400 páginas sobre a “parentalidade em atenção plena”. Mas antes de mergulharmos de cabeça no conceito que defende que os pais, à semelhança dos filhos, devem entregar-se à sabedoria do mindfulness, vale a pena recordar o que significa o conceito.

Em abril de 2016, Vasco Gaspar, autor do livro Aqui e Agora, explicava  que mindfulness era tão simplesmente a “capacidade de estar presente”, o “estar consciente do que se passa à nossa volta”, das emoções que vamos sentindo ao longo do dia e do nosso próprio corpo. O livro Pais Conscientes, Filhos Felizes não foge à lógica e os seus autores garantem que o mindfulness “é a consciência que surge ao prestarmos atenção de propósito, no momento presente, sem juízos de valor”. A sua prática é tida como uma ferramenta que visa contrariar vidas em piloto automático, circunstância da qual muitas vezes somos vítimas, prestando atenção “apenas selectiva e aleatória”, tomando coisas importantes por garantidas e formando opiniões rápidas e muitas vezes irrefletidas.

Mindfulness para pais. Como funciona?

mindfulness, enquanto disciplina meditativa, tem vindo a marcar presença na nossa sociedade nos últimos 35 anos em diferentes áreas, educação incluída. A dita “parentalidade consciente”, associada ao mindfulness, “envolve manter presente o que é verdadeiramente importante à medida que tratamos das actividades do quotidiano com os nossos filhos”. É esta uma forma que nos incita a reconhecer mais facilmente os desafios enfrentados diariamente, uma vez que “a consciência tem de ser inclusiva”.

Isto é, “tem de incluir reconhecer as nossas próprias frustrações, inseguranças e defeitos, os nossos limites e limitações”. Cada momento é visto como uma nova oportunidade para pôr estas ferramentas em prática, uma vez que a “parentalidade consciente” é um processo contínuo e não tem em vista objectivos fixos.

mindfulness não implica, porém, concentrar-nos em excesso num filho. A ideia é, ao invés, ajudar-nos a “desenvolver e sustentar uma autoconsciência incorporada”, que pode ser posta em prática por via formal ou informal — a primeira diz respeito à meditação, ainda que não seja preciso cruzar pernas, e a última é conhecida como “mindfulness no quotidiano”, sendo a principal prática recomendada aos pais. De referir que das dezenas de milhares de pessoas que já completaram, nos EUA, o Programa de Redução de Stress Através da Atenção Plena (MBSR, iniciais em inglês), a grande maioria são pais.

O mindfulness não nos diz o que fazer, mas oferece-nos, isso sim, uma forma de escutar, uma forma de prestarmos muita atenção àquilo que cremos ser importante e de expandirmos a visão do que isso pode ser em qualquer situação, sob quaisquer circunstâncias.” Pág. 57

Soberania, empatia e atenção

Os autores defendem que os pais devem respeitar a soberania dos filhos, isto é, confiar naquilo que eles são, genuinamente — soberania no sentido da natureza verdadeira de cada um. “A soberania é muito diferente de prerrogativas sem limites. Não significa que se deva dar às crianças tudo o que querem, nem que outros devam fazer o trabalho delas.”

A isto acrescenta-se a questão da empatia e da aceitação: “Mais do que qualquer outra coisa, uma preparação cuidadosa da soberania de um filho e o ato de a honrar através da empatia e aceitação são a essência da parentalidade com atenção plena”, lê-se na obra. A empatia em causa serve para que os pais vejam as coisas a partir da perspetiva dos filhos — é o exercício de tentar perceber o que eles estão a sentir ou a viver em determinado momento. “Esforçamo-nos por transpor uma consciência compassiva para o que está a acontecer em cada momento. Isto inclui uma noção dos nossos próprios sentimentos, também.”

A soberania e a empatia são ampliadas pela aceitação, explicam os autores, que a definem como um terceiro elemento fundamental da “parentalidade com atenção plena”. A aceitação é, então, tida como uma orientação interior que reconhece que as coisas são como são, uma ideia nem sempre fácil de aceitar no dia a dia.

“A prática do mindfulness consiste em desenvolver consciência da nossa relação com o momento presente e em reparar quando nos debatemos contra a forma como as coisas são.” A aceitação não pode, no entanto, ser equiparada a resignação passiva ou a derrotismo, da mesma forma que o respeito pela soberania dos filhos não deve ser confundido com deixá-los fazer tudo o que querem. O que está aqui em causa é a não tão aparente dificuldade em aceitar os filhos tal qual eles são: “Aceitar os nossos filhos tal como são. Parece tão simples. Mas com que frequência damos por nós a querer que ajam, pareçam ou sejam diferentes do que realmente são naquele momento?”.

Respirar, respirar e respirar

Num capítulo dedicado à respiração, os autores começam por explicar que uma forma de dar início à já tão falada “parentalidade com atenção plena” é através do cultivo de uma certa “intimidade com a nossa própria respiração” ao longo do dia. É fácil perceber o motivo: ao estarmos conscientes da nossa respiração, trazemos a mente e o corpo para o momento presente. Esta prática continuada ajuda a preservar o momento presente com maior calma e clareza. Não é por acaso que muito da meditação anda em torno de exercícios de respiração que promovem a calma e ajudam até a reduzir o stress.

Mudar fraldas, limpar a bagunça, interromper discussões, correr para aqui e para ali, preocupar-nos e sentirmo-nos ansiosos, trabalhar ou brincar, tempo “activo” ou “inactivo” — todas estas são ocasiões apropriadas para usarmos a nossa própria respiração, para estarmos mais presentes.” Pág. 132

Discernimentos vs Julgamento.

Se por um lado podemos não ter consciência da forma como respiramos, por outro, é provável que tenhamos apenas a vaga ideia de que passamos o tempo todo a pensar. O exercício de prestar atenção à respiração permite, pois, observar, sem criticar, o que nos vai passando pela mente — pensamentos quase sempre “opinativos e ou parcial e totalmente inexatos” — e deixa-nos perceber como é difícil, na maior parte dos casos, estabilizar a atenção. É a partir dessa torrente de pensamentos que criamos modelos de realidade, “sob a forma de ideias e opiniões acerca de nós, dos outros e do mundo” que acreditamos como verdadeiros. Escrevem os autores que quanto mais nos apegamos a essas ideias mais diminuídos ficamos e as nossas possibilidades de crescimento estreitam-se.

“O que é requerido para cultivar o mindfulness e a parentalidade com atenção plena, em vez de julgamento, é discernimento, a capacidade de observar algo em profundidade e detetar distinções relevantes e com clareza. O discernimento é a capacidade de ver isto e aquilo, por oposição a isto ou aquilo. É sinal interno de respeito pela realidade.”

Fonte:Observador Foto: iStockphoto/lolostock

Yoga: Preserva memória e auxilia envelhecimento

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A prática regular de yoga pode ajudar a preservar as regiões cerebrais associadas a funções como atenção e memória de trabalho ao longo do processo natural de envelhecimento. É o que indica um novo estudo, feito no Instituto do Cérebro do Hospital Israelita Albert Einstein. Investigadores  chegaram a essa conclusão após analisar, por meio de ressonância magnética, o cérebro de 42 idosas. Todas tinham condições de saúde, idade e escolaridade semelhantes, mas apenas metade das voluntárias era adepta da prática. “Os exames mostraram que o córtex pré-frontal das mulheres que praticavam yoga há pelo menos oito anos era mais espesso quando comparado ao das não praticantes. Esse resultado sugere que o exercício tenha um papel de neuroprotecção, retardando a degeneração cerebral que ocorre com a idade da mesma maneira que retarda a perda de massa muscular”, disse Rui Afonso, primeiro autor do artigo com resultados do estudo publicado na revista Frontiers in Aging Neuroscience. “Baseamo-nos num trabalho anterior de uma das coautoras [Sara Lazar, da Harvard Medical School], segundo o qual pessoas que praticavam meditação há pelo menos 10 anos tinham regiões do cérebro – algumas áreas do córtex pré-frontal e da ínsula – mais espessas que a de não praticantes”, disse Kozasa, que conduz o projecto de pesquisa “Efeitos da prática do yoga em pacientes com esclerose múltipla: uma abordagem multidimensional”. Embora o estudo feito em Harvard tenha incluído indivíduos de idades variadas, a diferença na espessura cortical foi mais expressiva em pessoas idosas. “Decidimos, então, realizar o estudo apenas com idosos. Optamos pelo yoga por ser mais fácil encontrar praticantes de longa data e também por ser um exercício que tem um componente meditativo”, disse Kozasa. Envolve a prática de posturas físicas ou asanas (pronuncia-se ássanas) e também técnicas de respiração conhecidas como pranayamas, gestos (mudras) e contrações musculares voluntárias (bandhas). Além de equilíbrio e força muscular, portanto, o exercício requer um esforço de atenção, concentração e até mesmo da chamada memória de trabalho – necessária para cumprir tarefas específicas, como a reprodução de algumas das centenas de asanas diferentes. “Existem diversos estudos comprovando os benefícios do yoga, principalmente em relação ao alongamento e ao equilíbrio, mas também à memória e à atenção. Os nossos dados vão ao encontro dessas evidências da literatura científica”, disse Kozasa. A investigadora faz uma ressalva de que, para ter a certeza de que a maior espessura cortical observada é de facto resultado da prática de yoga, seria necessário acompanhar um grupo de voluntários desde antes de começarem a praticar o exercício. “Por isso, pretendemos começar um novo estudo longitudinal [de longo prazo] com outros voluntários que ainda não praticam yoga, mas pretendem se tornar adeptos”, disse.

Exame. Foto: Yoga (Spencer Platt/Getty Images)