Uma breve história do Budismo

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O BUDA
Milénios antes dos europeus colonizarem o Sul da Ásia, a região era composta por centenas de reinos ou repúblicas independentes. Uma destas repúblicas ficava no que hoje é fronteira entre Índia e Nepal.
O nome dessa república “Shakya”, é uma palavra sânscrita que significa “aquele que é capaz”. Cerca de 500 a.C. era governada por Sudodana, um rei considerado justo pela população. Sudodana era casado com a Rainha Maya, e o nascimento do primogénito do casal foi uma ocorrência rodeada de auspícios.
Na noite da concepção ela sonhou que um elefante de seis presas entrou no seu ventre pelo lado direito do abdómen, e dez meses depois nasceu Sidarta. Como era costume naquela região, o filho deveria nascer na terra do avô materno, mas Maya deu à luz no meio do caminho, em Lumbini, e veio a falecer 7 dias depois.
Um eremita vidente chamado de Asita, após analisar sinais no corpo do bebé, anunciou que seria um grande líder para os homens, fosse num aspecto mundano, na forma de um Rei como o pai desejava, ou num aspecto espiritual, como um guru que ensinaria moksha – libertação.
Sidarta cresceu na cidade de Kapilavastu, capital do Reino dos Shakyas, cidade que hoje não temos certeza se corresponde a Tilaurakot, no Nepal ou a Pibrahwa, na Índia. Ele recebeu toda a educação usual que um príncipe costumava receber, o que incluía o estudo dos textos clássicos e treinamento físico e no uso das armas como o arco-e-flecha, demostrando excelência em todas as actividades.
Chegando a idade de 16 anos, Sidarta casou com a prima, Yasodara, além de manter milhares de outras esposas, como era costumeiro à elite naquele tempo e lugar. Com Yasodara teve um filho que foi chamado Rahula.
Porém a vida de luxo nos seus três palácios sazonais, com todas as facilidades e prazeres disponíveis para um príncipe numa região pacífica e próspera, não impediam que Sidarta sentisse certas inquietações. Seu pai, com medo que ele se tornasse um religioso e abandonasse as responsabilidades quanto à herança de líder no reino dos Shakyas, protegera de receber muitos ensinamentos religiosos, e em particular, de entrar em contacto com o sofrimento dos seres.
Mesmo levando uma vida tão resguardada na superficialidade dos divertimentos mundanos, ou talvez por isso mesmo, Sidarta desenvolveu uma grande sensibilidade, e até mesmo curiosidade, por aquilo de que era protegido. Consta que um dia viu flores murchas que algum criado havia se esquecido de trocar, e logo perguntou ao criado do que se tratava aquele fenómeno tão estranho. Após algum questionamento o criado foi obrigado a dizer que as coisas eram assim mesmo: as flores, como tudo mais, estão sujeitas à decadência.
Agora certo de que algo importante havia lhe sido ocultado, Sidarta pede ao pai para visitar a cidade – sua primeira vez fora do palácio. O pai, preocupado, buscando criar uma ilusão de riqueza e glória contínua para o filho, coloca multidões de pessoas a trabalhar para esconder a pobreza e decadência do caminho por que Sidarta passaria.
Mesmo assim, este trabalho de ocultação do sofrimento, como tinha de ser, foi imperfeito. Sidarta acabou observando quatro coisas que o deixaram muito inquieto: um velho, um doente, um cadáver e um mendingo religioso vestido com mantos.
Ao perguntar aos criados sobre aquelas coisas, ficou sabendo que velhice, doença e morte eram inevitáveis, e que ele, seu filho, sua mulher e todos que conhecia passariam por pelo menos uma dessas experiências, provavelmente as três. Mas o que significava o mendigo religioso? Ele, segundo os criados, era alguém que não estava satisfeito com essa situação, e que, portanto, buscava uma saída.
Sidarta ficou realmente impressionado, e a partir dessa experiência nada mais dentro do palácio era capaz de lhe dar contentamento. Logo começou a planear uma fuga para tornar-se num religioso, e, como aquele homem santo, também buscar uma solução para tão evidente e grave problema – um problema perante o qual quase todos parecem estar cegos, ou, pior que isso, que deliberadamente preferem ignorar. Realizando os piores medos do pai, Sidarta estava decidido a encontrar uma solução. E não apenas em seu próprio nome, mas em nome de todos também sujeitos a essa terrível realidade de decadência inexorável.
As instruções religiosas que Sidarta encontrou ao sair do palácio o levaram a praticar ascetismo extremo por seis anos. Ele vivia ao relento, quase nu e a maior parte do tempo sentado imóvel – comendo uns poucos grãos por dia e bebendo gotas de orvalho. Essa disciplina buscava fazer cessar os impulsos do corpo, de forma que alguma verdade espiritual fosse revelada e concedesse liberdade perante o sofrimento vasto desse mundo transitório, que ao ser comparado com aquele mero incómodo físico, o reduz à irrelevância. No final desse período de mortificação do corpo, prestes a morrer de fome, ele ouviu a voz longínqua de um professor de música passando num barco, dizendo ao aluno que “para o instrumento tocar bem as cordas não podem estar muito apertadas – e nem muito frouxas”. Abandonando os exageros de seus colegas do ascetismo – e até mesmo sendo considerado um traidor –, ele decidiu alimentar-se, e logo se deparou com uma moça que lhe ofereceu uma tigela de arroz doce.
Após a refeição, ele sentou sob uma árvore, e com a mente muito serena e lúcida, ele analisou o processo de causalidade. Examinou como um elemento está ligado com outro até a origem, que é uma espécie de cegueira perante as possibilidades – uma forma de encarar as coisas que nos impede de reconhecer o que realmente são – nos dificultando reconhecer todas as outras formas possíveis de encará-las. A partir dessa ignorância básica, passando por nove outros passos em que ela se arma e solidifica cada vez mais, chegamos ao momento da concepção, então nossa vida acontece e enfim sofremos e morremos.
Através de uma reflexão minuciosa sobre os 12 Elos da Originação Dependente, Sidarta reconheceu que o único modo de desfazer essa confusão era repousando na visão que havia sido ofuscada por essa ignorância básica. Ele então decidiu não levantar daquele lugar até obter esse reconhecimento.
Durante a madrugada Sidarta passou por todo tipo de experiências visionárias e tentações. De prazeres sensoriais e medo profundo a estados meditativos enganadores, e até a reificação da megalomania na forma de alguém que achou que atingiu alguma coisa especial. Sidarta permaneceu imóvel e não cedeu a nenhum impulso de desistência, autoglorificação ou ressentimento.
No amanhecer daquele mesmo dia, quando a última estrela ainda brilhava no céu, príncipe Sidarta acordou para a realidade além de nascimento, doença e morte. A partir desse momento, aos 35 anos de idade, ele foi chamado de Buda, isto é, “o desperto”. Ele então passou quatro semanas sob a árvore, simplesmente usufruindo o resultado de muitas vidas completamente focadas em esforços altruístas e aprendizado espiritual.
Mas ainda faltava um detalhe. Buda teve uma pequena dúvida quanto a possibilidade de ensinar algo assim aos outros. Foi aí que o poderoso Deus Brahma (um dos deuses que mantém a crença de ser o criador desse mundo), veio em pessoa pedir ao Buda que ensinasse aos seres o que descobriu, porque, segundo ele, há muitos que possuem apenas uma leve camada de poeira sobre os olhos, e facilmente podem ser levados a reconhecer o que está além de vida e morte.
Buda então reencontrou os cinco ascetas que o haviam abandonado. Reconhecendo prontamente a realização que desabrochara naqueles últimos dias, eles voltaram atrás no seu julgamento, e assim Buda lhes concedeu o primeiro ensinamento, as Quatro Nobres Verdades.
Segundo esse ensinamento, tudo que é composto é insatisfatório (a 1ª NV) – mas a causa da insatisfatoriedade não está propriamente nas coisas, mas em não reconhecer sua natureza (composta, insatisfatória, impermanente) e buscar satisfação através delas (a 2ª NV). Quando paramos de depositar confiança nas coisas compostas, de dar a elas o poder – que elas não tem – de produzir nossa felicidade, atingimos uma grande liberdade (a 3ª NV).
Para efectivar o reconhecimento das três outras verdades, a quarta nobre verdade prevê um Caminho de Oito Passos. Ele inclui desenvolver uma perspectiva autêntica perante a vida e comprometer-de com o caminho espiritual que leva ao estado desperto de um Buda (1), praticar a ética de forma autêntica em corpo (2), fala (3) e mente (4), viver e ganhar a vida de forma honesta e autêntica (5), praticar meditação de forma também autêntica, até desenvolver uma estabilidade lúcida e calma (6), examinar de forma igualmente autêntica as coisas com base nessa estabilidade refinada (7), e enfim repousar de forma não menos autêntica no resultado que é o estado desperto (8).
Após esse primeiro ensinamento, o Buda ensinou incansavelmente, mendigando alimento e caminhando por todo subcontinente indiano, por 45 anos. Ele fundou a comunidade monástica, que se reunia todo ano por três meses, durante a estação das chuvas, para receber ensinamentos e fazer práticas em grupo. Após esse período os monges dispersavam-se e ensinavam o que haviam aprendido por onde passavam, onde quer que fossem requisitados.
Aos oitenta anos de idade Buda recebeu um alimento estragado como oferenda, e para mais uma vez ensinar sobre a impermanência, manifestou uma morte bem humana, causada por disenteria.
A PRESERVAÇÃO DO ENSINAMENTO
Após a morte do Buda, a comunidade monástica reuniu-se em quatro grandes concílios, que decidiram o futuro do budismo.
O primeiro concílio ocorreu um ano depois da morte do Buda. Após um monge em particular ansiar pelo relaxamento de regras monásticas, já que o sábio não estava mais presente, outros monges decidiram que seria necessário planear a preservação cuidadosa dos ensinamentos. Até os dias de hoje, embora seja bastante claro que o Vinaya (conjunto de regras monásticas) foi estabelecido pelo Buda circunstancialmente, de acordo com costumes locais e ocorrências particulares – e o próprio Buda ter dito ser necessário adaptar o Vinaya as circunstâncias de tempo e local – para eliminar regras (apenas as menores são passíveis de revogação) é necessário unanimidade na comunidade monástica, algo que nunca foi atingido.
Aproximadamente 100 anos depois, os monges reuniram-se novamente. Desta vez, possivelmente também por questões ligadas ao Vinaya, houve uma diferença irreconciliável, e dois grupos formaram-se. Segundo as fontes primárias mais antigas, a maioria (que doravante foram conhecidos como Mahasamghika) se recusou a aceitar certas regras adicionadas pelo grupo minoritário (Sthavira). Segundo a tradição Theravada, que ainda existe, e é uma derivada de escolas que derivaram do ramo dos Sthaviras, este concílio foi necessário por que certos monges recusaram-se a obedecer a uma lista de 10 preceitos controversos. Alguns deles eram aparentemente inócuos, como não armazenar sal num chifre, ou não beber iogurte após o almoço – mas pelo menos um era bastante importante, “não usar ouro ou prata”, o que é interpretado como não receber oferendas em espécie ou mesmo tocar ou lidar com dinheiro.
250 anos a. C., um terceiro concílio foi realizado. O budismo havia encontrado um patrono excelente na forma de Rei Ashoka, mas todo aquele dinheiro e poder temporal aparentemente começaram a corromper a comunidade, que começou a se preocupar com professores falsos e doutrinas heréticas. Enquanto os dois outros concílios se focaram em regras próprias da comunidade monástica, neste concílio pela primeira vez se reconhece que é preciso chegar a um consenso quanto aos ensinamentos do Buda de forma geral. Era preciso determinar a intenção por trás de suas palavras, e estudar como evitar que a doutrina se corrompa com a distorção terminológica ou a adição de ideias espúrias – mesmo porque enquanto o budismo se espalha, começa a ser necessário traduzir as ideias de uma cultura para a outra. Uma determinação importante desse concílio foi enviar monges missionários para várias regiões, algo que teve muito sucesso em vários reinos na chamada “Rota da Seda” e que na época tinham boa parte de suas regiões controladas por gregos (no Afeganistão, por exemplo) – mas monges foram enviados até Atenas. É com a influência helénica, que de facto começa a representação da figura do Buda na arte budista, melhor representada pelo estatuário descoberto em escavações arqueológicas na cidade de Gandhara.
Não há um quarto concílio, mas dois. Um deles ocorre no Sri Lanka, e outro em Kashmir – representando uma divisão que os eruditos costumam fazer entre budismo do “norte” e do “sul”. Esta divisão, ao longo dos séculos, redundou, grosseiramente falando, na separação entre Theravada e Mahayana (ainda que nessa altura, no primeiro século d. C., não se pudesse usar o segundo termo).
O concílio do Sri Lanka decide pela primeira vez registar todos os ensinamentos do Buda em papel, já que os monges estavam encontrando dificuldade de memorizá-los (a quantidade de palavras seria maior do que uma dúzia de Bíblias católicas).
Embora existam alguns registros budistas mais antigos, eles não são tão sistemáticos, e nem um pouco tão completos quanto os que a tradição Theravada começa a empreender já nesse concílio. E por isso a tradição Theravada hoje detém o cânone budista mais reverenciado por todas as tradições budistas e pelos historiadores. Ainda que as fontes primárias mais antigas desse cânone restantes hoje nos remetam a quase mil anos depois das determinações do quarto concílio, a preservação sistemática empreendida pelo Theravada, e a precisão histórica dos relatos, levam todos a crer que os ensinamentos ali preservados são os mais próximos do que o Buda ensinou – mesmo em termos da língua, o Páli, que é um dialeto razoavelmente próximo do que historicamente se acredita o Buda falava.
A tradição Theravada seguiu promovendo concílios próprios, e pelas bênçãos do Buda existe intacta e gloriosa até os dias de hoje – podemos encontrar monges em países no sul da Ásia que não aceitam dinheiro como oferenda, e que vivem de uma forma muito semelhante – senão virtualmente igual – a que o Buda vivia com seus alunos, 2600 anos atrás.
A COMUNIDADE DE NOBRES AMIGOS ESPIRITUAIS
Mas enquanto a história do “budismo do sul” viva quase 2000 anos sem grandes contratempos, a história do “budismo do norte” acaba sendo uma tapeçaria vasta de adaptação e sincretismo com as várias culturas da Ásia.
Em certo sentido podemos encarar essas disputas nos concílios e cisões na comunidade como encaramos as disputas entre as seitas de religiões monoteístas. Acaba parecendo uma disputa em torno da determinação da “verdade”, ou do que é mais genuíno e puro, em torno do que o fundador de uma tradição teria expresso.
Porém, no budismo a problemática é, em certo sentido, bem menor. Todas as formas de budismo concordam que o Buda falava de forma “expediente” – isto é, ele não impunha ao interlocutor uma visão particular, mas se colocava na posição de falar aquilo que seria mais benéfico numa dada circunstância. Em outras palavras, o que o Buda ensinava era ensinado em reacção às questões trazidas pelas pessoas, e ao que elas eram capazes de aprender, sem tentar impor uma “fórmula” ou explicação da realidade supostamente baseada no resultado que ele obteve.
Assim, em alguns casos o Buda falava na existência de um “eu”. E, embora o budismo seja conhecido como uma tradição que nega a existência do eu, de facto existe uma escola budista (a Pudgalavada), que aceita a existência do “eu”. Porém, em muitas outras instâncias o Buda claramente negava qualquer base para a existência de um eu. Teria o Buda entrado em contradição? Como a Pudgalavada pode ser considerada uma tradição budista autêntica, mesmo tendo um ponto doutrinário central em tão direta contradição com absolutamente todas as outras tradições budistas?
Sua Santidade o Dalai Lama diz que, embora o budismo refute através da inferência lógica a existência de um criador, se há, em algum lugar, uma senhora idosa que pratica a virtude porque acredita em Deus, talvez seja melhor não ensiná-la como refutar a ideia de um criador. Se lhe retiramos a sua ideia de criador, sua prática de moralidade pode ficar afectada, sem muito ganho – nesse caso seria uma desvirtude explicar a essa senhora por que um criador é impossível. Caso a pessoa manifeste interesse em aprender uma coisa desse tipo, então pode ser bom ensinar. De outra forma, talvez o melhor seja não agitar os ânimos.
Dessa forma, quando algumas vezes “especialistas” em budismo encontram professores contemporâneos falando em Deus, “eu supremo” ou noções de alma, eles podem ficar desconfiados da qualificação do mestre. Porém é bem possível que ele esteja apenas usando os mesmos “expedientes” que o Buda ensinava para ensinar – isto é, falar de acordo com a expectativa, a capacidade e a necessidade do interlocutor.
No segundo século d. C. o “budismo do norte” produz o primeiro de uma grande lista de professores em várias culturas e países, que, pela vastidão e impacto dos ensinamentos – no contexto dos ensinamentos de Buda e com amplo e irrestrito respeito pelo sábio do Clã dos Sakias –, seria comparado com ele próprio. O “Segundo Buda” é um título que recai primeiro sob Nagarjuna – mas depois vai recair sobre Guru Rinpoche no Tibete, sobre Bodidarma na China, e sobre Dogen e Nichiren no Japão.
Porém Nagarjuna é o único dessa lista que é amplamente respeitado por todas as formas de budismo existentes hoje. Embora ele seja o maior luminar do Mahayana, o Theravada também o reconhece como grande professor.
Para Nagarjuna, a realidade da inexistência do “eu”, ou inexistência de uma essência independente, vai de cada objeto apreensível por uma consciência até a base ou fonte das palavras do Buda. Ser um Buda, para Nagarjuna, não é ter chegado a uma conclusão dentro de si e então impor ideias aos outros – a realização do Buda não pode ser pregada, ou mesmo ensinada no sentido de alguém que passa uma receita de bolo para outra pessoa.
O que o Buda fazia, e que redundou nessa riqueza e diversidade de tradições, era reagir de acordo com as necessidades do interlocutor enquanto incessantemente seguia repousando na liberdade reconhecida naquela ocasião sob a árvore. Da combinação dessas duas dimensões acontece a reação em cadeia da liberação dos seres através dos ensinamentos. O que o Buda não faz é passar uma “mensagem” ou “verdade” interna que ele detém e que então supostamente passaríamos a deter através do entendimento dos sentidos dos termos expressos. Não é uma revelação, ou algo que alguém pode encontrar e então estampar a ferro na mente da outra pessoa.
O contraponto de Nagarjuna foi Asanga – que não frisava tanto o aspecto de ausência de uma violência interna (de impor visões, de manter uma noção de “eu”) e a visão de liberdade radical que isso acarreta. Asanga enfatizava a presença calorosa do Buda – o facto de que ele só consegue falar connosco na sua esquisita língua de Buda porque já temos “outro” Buda potencial presente dentro de nós. Os ensinamentos operam por ressonância com o que temos em comum. Sem isso, como seria possível entender o Buda? Aqueles que enfatizaram o ensinamento de Nagarjuna foram chamados de Madhyamikas (seguidores do Caminho do Meio), e os que enfatizaram Asanga foram chamados de Yogachara (praticantes de yoga, ou meditação).
O que acabou acontecendo no quarto concílio na sua segunda versão, em Kashmir, foi o começo de uma longa doxografia de escolas – isto é, uma compilação e comparação de visões diferentes sobre o budismo – reconhecendo sempre alguma riqueza em cada uma, e os potenciais defeitos. Este rosário de visões é a base do Mahayana, o “grande veículo” – que é chamado de grande porque frisa a compaixão, mas que também é grande porque comporta miríades de visões sobre o budismo.
E não só de visões budistas: na medida em que o budismo dialogou com as outras tradições indianas, ele se sofisticou. E também se sofisticaram as escolas (particularmente as hindus) com que debateu. E os budistas, especialmente os do norte, sempre foram considerados a tradição mais aberta ao diálogo – tanto que fundaram, no séc. V, a primeira universidade do mundo – que chegou a comportar, segundo relatos, 10 mil alunos e 2 mil professores. É considerada uma universidade por que não só várias disciplinas budistas e técnicas eram ensinadas, mas professores não budistas eram convidados a vir e debater com os alunos.
Além disso, o budismo começou a adaptar-se para outras realidades e circunstâncias que nem sempre eram abertas ao monasticismo – e várias modalidades de instituições sociais, e formas de prática peculiares surgiram no encontro com mudanças culturais. A comunidade laica sempre teve um papel importante no budismo, principalmente como sustentadora da comunidade monástica – mas com o passar do tempo surgem muitos grandes praticantes e professores bastante respeitados que não necessariamente assumem a disciplina monástica.
As tradições de Asanga e Nagarjuna – e boas misturas delas – foram exportadas antes do ano 1000 para vários países, inclusive Tibete, China, Japão, Coreia e Mongólia – onde vastas quantidades de textos foram traduzidas em esforços colectivos que duraram séculos, e que sofisticaram a técnica de tradução, sem falar nas técnicas de reprodução de texto. O mais antigo livro impresso existente hoje é uma cópia do Sutra Lapidador de Diamantes em Chinês, do ano 868, cerca de 600 anos antes da Bíblia de Gutemberg ser impressa.
Ao mesmo tempo, o budismo tão diverso da Índia clássica era destruído por invasões muçulmanas, só retornando à Índia com o colonialismo Britânico, no séc. XVIII.
Seria possível encher tomos apenas com os nomes de grandes professores e seres realizados, só considerando países onde o budismo era central, tais como o Tibete ou o Japão, e os últimos 1000 anos. Que dirá então contar suas histórias e descrever os seus contextos sociais… E agora o budismo aos poucos vem chegando no ocidente: dos primeiros contactos com os gregos, até um período de 1500 anos em que nos ignoramos mutuamente, chegamos ao presente momento de globalização da cultura.
A tradução de textos-raiz para línguas ocidentais vai ser completada provavelmente neste século, já temos óptimos professores ocidentais, e aos poucos vemos praticantes sérios despontando  aqui e ali. Nessa adaptação há grandes desafios, e, claro, grandes oportunidades.
Formas de budismo que na Ásia não se encontraram por mais de mil anos, agora são vizinhas numa mesma cidade na América do Sul – práticas são redescobertas, ênfases mudam – preconceitos são descobertos, e, algumas vezes, superados. São novos ares para uma tradição que está em constante renascimento, sempre tomando o cuidado de não cair em distorções e manter algo da pureza inefável da experiência de Sidarta sob aquela árvore.
Algumas pessoas dizem que o budismo não é uma religião, que é uma filosofia, ou até uma ciência. Mas o budismo é possivelmente, mais do que tudo, uma força civilizatória. Considerando os desafios ambientais que o mundo vive hoje, e cuja fonte real está na barbárie de mentes aleatórias que buscam satisfação em coisas externas – pode muito bem ser que a reverberação de um plácido sussurro de estado desperto seja o perfeito remédio para curar o mundo de suas mazelas.

Namastê: Valor da Gratidão

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Namastê é muito mais do que uma palavra originária desse antigo e bonito idioma que é o sânscrito. Ela contém em si uma série de conceitos que a tornaram universal e, por sua vez, cruzaram fronteiras.

O seu significado vai mais além da saudação e despedida comuns na prática do ioga; este termo encerra nas suas antigas raízes uma essência que deveria bombear todos os dias no coração da humanidade. No entanto, parece que todos tiramos dela como as diversas etiquetas que rodeiam a nossa sociedade consumista viciada em moda, perdendo, por vezes, o seu verdadeiro sentido, o seu valor mais intrínseco.

Pratica-se no dia de hoje o sentido da gratidão desde a perspectiva mais nobre da humildade? Temos a tendência de reconhecer os outros da mesma forma como reconhecemos a nós mesmos? Isto é o que realmente se funde na palavra “Namastê”, e é por isso que hoje queremos falar dela e desses valores que não vemos tão facilmente no nosso dia a dia.

Namastê, eu inclino-me na tua direcção e reconheço-te.

Para a sociedade ocidental, a palavra “Namastê” está intimamente ligada à ioga. Não obstante, todos aqueles que tenham conhecimentos sobre a sempre interessante cultura e religião do sul da Ásia saberão que este termo transita com normalidade na vida diária de hindus, budistas e todos esses povos que assimilaram em seus rituais de saudação e despedida esta palavra tão cheia de simbolismos, onde por sua vez, se encerra também o acto universal de agradecer.

Na realidade, cabe destacar que não trata-sr de uma palavra única, mas que é resultado de dois termos: “namas” que poderíamos traduzir como “saudação” ou “reverência”, e que tem a sua raiz em “nam”, que significa “curvar-se” o “inclinar-se”, e “te”, que seria um pronome pessoal para configurar a expressão “inclino-me ou curvo-me em direcção a ti”.

Esta ideia vem a configurar por sua vez a espiritualidade que representa esta cultura, onde todos nós formamos na realidade um todo, em união com o universo.

O que significaria isto? Algo tão interessante quanto o seguinte:

–  Se todos fazemos parte de uma mesma entidade, o que lhe afecta a também me afecta.Portanto, reconheço os outros também como parte de mim mesmo, daí o meu respeito, daí que a palavra Namastê seja simbolizada por sua vez com o gesto de juntar as mãos.

Ao fazê-lo, indicamos para a outra pessoa que não há diferenças entre ambos, que ambos somos a mesma coisa. É interessante levar em conta que para o hinduísmo a mão direita representa a divindade, o plano espiritual, enquanto que a esquerda configura o terreno, e o devoto que inclina-se na direcção a essa divindade.

– Ao pronunciar a palavra Namastê agradecemos a outra pessoa e a reconhecemos pelo que fez. Não obstante, ao agradecer a outra pessoa também reconheço a mim mesmo, porque ambos criamos uma união mútua. Quer dizer, se eu ajudo por exemplo um amigo a solucionar um problema e ele me agradece, ambos saímos beneficiados: ele por ter resolvido o seu problema e eu por ter feito esse acto de nobreza. Ambos formamos um todo onde nos reconhecemos mutuamente.

Namastê, um valor a incluir na nossa vida diária

Pode ser que não seja religioso, é possível que também não se veja como uma pessoa espiritual capaz de utilizar a palavra Namastê a partir de agora. Não procuramos isto de forma alguma, só pretendemos fazer pensar nos valores integrados nesta palavra: a gratidão e o reconhecimento.

De que maneira podemos incluí-los na nossa vida diária? Reflicta sobre estes aspectos:

1. Para aplicar o sentido de gratidão, primeiro temos que aprender a sermos humildes, mas cuidado, ser humilde não significa de maneira nenhuma dar tudo aos outros e ficar sem nada.

Ser humilde significa saber conhecer os nossos próprios limites, admitir os nossos defeitos, saber desfrutar e apreciar as coisas simples tendo sempre a mente aberta onde saibamos nos enriquecer com os outros, com o que nos oferecem. Quem é humilde é grato, porque entende como ninguém o verdadeiro valor das coisas.

2. Respeite as pessoas que lhe rodeiam, respeite a Natureza, e lembre-se também de respeitar a si mesmo.

3. Valorize os seus, conviva, ouça, enriqueça-se de conhecimento.Dignifique os outros e a si mesmo como merecem, como parte desse “todo”.

4. Alegre-se por cada coisa que fizer, por cada aspecto que receber dos outros e pelo que lhe cerca, por menor que seja.

5. Agradeça, lembre-se sempre de agradecer por tudo o que vê, sente, recebe… Porque tudo faz parte de si, e a sua pessoa por sua vez também forma parte desse todo onde poderá encontrar o seu verdadeiro equilíbrio.

 

3 crenças budistas que vão dar felicidade

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Não tem que praticar ioga ou seguir uma dieta ayurvédica para se beneficiar as ideias budistas (mas se fizer isso, mais poder terá).

Então, mesmo que não pense em equilibrar o seu dosha, aqui estão três poderosos elementos da filosofia budista, “As Nobres Verdades”, e como pode incorporá-las a cada dia. Isso pode mudar a sua vida …

1. Dukkha: A vida é dolorosa e causa sofrimento

Muitas pessoas podem dizer que o Budismo é pessimista ou negativo. Este é um resultado comum de aprender uma das Nobres Verdades e traduzir como “A vida é sofrimento”. Mas há mais nesta declaração. Ela não está apenas nos dizendo: “A vida é dura, então lide com isso.” Então o que mais ela diz?

Nós, podemos criar mais sofrimento nas nossas vidas tentando evitar ou suprimir emoções difíceis. Sim, as nossas vidas são inevitavelmente pontuadas com vários sentimentos desagradáveis: perda, tristeza, fadiga, tédio e ansiedade aparecem e reaparecem durante as nossas vidas.

Mas agarrar-se a expectativas particulares, coisas materiais, e estados do seu “ser”, muitas vezes é motivo de forte frustrações, decepções, e outras formas de dor. Então, ao invés de temer o nosso sofrimento ou procurar uma solução definitiva (que dificilmente será encontrada), podemos aprender simplesmente a reconhecer o nosso sofrimento.

Como podemos usar essa crença no dia-a-dia: Tente não comprar a ideia de que está quebrado. Espera a morte, o envelhecimento, a doença, o sofrimento e a perda faz parte da vida. Pratique a aceitação ao invés do conflito. Desapegue-se da ideia de que a vida deve ser fácil e livre de dor, emocional e fisicamente. Este é um equívoco que tornou-se popular pelas indústrias de moda, beleza, e farmacêutica.

Doença, desgosto, perda, decepção e frustração são partes da vida que podem ser mitigadas pela prática do “não-apego.” Tente abraçar a imperfeição para abandonar a crença de que a vida deve ser de determinada maneira. Abra o seu coração para a incerteza.

2. Anitya: A vida está em fluxo constante

Anitya ou “impermanência” significa que a vida como a conhecemos está em constante fluxo. Nós nunca podemos ter acesso ao momento que acabou de passar, nem nunca poderemos repetir. A cada dia que passa, as nossas células ficam diferentes, os nossos pensamentos desenvolvem-se, a temperatura e qualidade do ar mudam. Tudo em torno de nós é diferente. Sempre.

Quando sentimo-nos especialmente desconfortáveis, o conceito de impermanência pode ser, paradoxalmente, reconfortante. Por outras palavras: se nada é permanente, sabemos que a nossa dor vai passar. Mas quando estamos vivendo a alegria, a ideia da impermanência pode induzir medo.

Se aceitarmos a ideia da impermanência como um valor positivo, pode ser incrivelmente libertador. No Ocidente, cerca de 100 anos após Buda expressar esta ideia, o filósofo grego Heráclito espelhou a crença quando disse a famosa frase: “Nunca pode pisar no mesmo rio duas vezes.” Tudo o que temos é o momento presente.

Como podemos usar essa crença a cada dia: Comemore a ideia da mudança. Aceite que tudo está em constante mutação. E mesmo quando a ideia da impermanência parece assustadora, ela ajuda-nos a apreciar tudo o que estamos a viver no presente: as nossas relações, corpo, humor, saúde, clima, os nossos sapatos favoritos, os nossos empregos, a nossa juventude, as nossas mentes. Então, vamos saborear os momentos dos quais desfrutamos e ter em mente que os momentos dos quais não gostamos irão passar.

3. Anatma: O “eu” está sempre mudando

Quando um terapeuta pergunta aos seus pacientes o que eles querem encontrar na terapia, eles geralmente respondem: “Eu quero encontrar-me”. A nossa cultura levou-nos a acreditar que há um “eu” concreto e constante escondido em algum lugar em nós. Ela está entre o nosso coração e fígado? Ou em algum lugar desconhecido no nosso cérebro? Quem sabe!

O Budismo, no entanto, assume que não há esse “eu” estável e fixo. Em linha com Anitya (impermanência), as nossas células, memórias, pensamentos e narrativas pessoais – toda a “matéria” que em última análise compreende as nossas identidades – muda ao longo do tempo.

Claro, todos nós temos personalidades (embora elas possam mudar ao longo do tempo). Temos nomes, empregos, e outros títulos que usamos para nos identificar, para encontrar uma sensação do “eu”.

Mas a ideia de um constante “eu” é mais uma história que a nossa cultura ensinou-nos . É uma história que podemos mudar, aceitando a ideia de que nós mesmos podemos mudar – a qualquer hora, em qualquer lugar. Como Thich Nhat Hanh disse: “Graças a impermanência, tudo é possível.”

Como podemos usar essa crença a cada dia-a-dia: Em vez de focarmos em “encontrar-nos,” devemos concentrarmo-nos em criar o “eu” que queremos ser a cada momento. É possível que sejamos, e nos sentirmos diferentes do que eramos ontem. Estar deprimido hoje não significa que estará deprimido para sempre. Podemos perdoar os outros. Podemos perdoar-nos a nós próprios.

Uma vez que abandonamos o nosso apego à ideia do constante “eu”, podemos descansar mais confortavelmente com a constante mudança presente em toda a vida. Em cada novo momento, nós iremos renovarmo-nos.

 

 

Mind Body Green

 

 

Como é que o Budismo vê a depressão?

 

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Ser”, esta é a questão principal de um budista. Portanto, quando diz que se considera um budista, acaba deixando um pequeno rastro de dúvida e, principalmente, quando se refere a alguma identidade, é importante que possa de alguma forma dizer que é. Ou seja, da mesma forma que diz ‘Eu sou o Carlos’ ou ‘Eu sou a Joana’. Não deixa sombra de dúvida ou qualquer possibilidade de questionamento, tamanha a simplicidade da afirmação. Simplesmente “E”.

O facto de ser um budista, ou simplesmente de considerar-se um, não o impede de sair com os amigos e beber junto com eles. Aliás, é importante que saia e tenha a oportunidade de mostrar aos outros esse ‘ser’ que é e influenciá-los positivamente.

Aqui, mais uma vez, o importante é ‘ser’ equilibrado. Se por algum motivo não conseguir ser, e tiver uma recaída, tente de novo, afinal, se tem essa consciência budista, então deve mostrá-la a si mesmo, levantando e refazendo quantas vezes for preciso.

A depressão é um tipo de doença ocasionada principalmente pela ansiedade, que é um tipo de descontrolo. Portanto, uma boa forma de reagir é, se expondo, dando a cara pra bater. Não de maneira brutal, é claro, mas de maneira subtil, sorrindo, relatando os seus sentimentos, colocando os seus pontos de vista e principalmente, mostrando, por actos, para todos e para si mesmo, que é verdadeiro. Isso tudo levará reafirmar-se, e acreditar na iluminação própria e mútua. Não siga os impulsos da depressão, mas sim os sinais da cura.

Quanto ao que pode ocasionar a depressão, é caso por caso.

Também pode dizer-se que todo mundo tem um pouco de depressão, porém, nem todos permitem que ela tome conta. O mal existe, mas se não permitir que ele lhe influencie, então será o mesmo que não existisse. É assim que enfrentamos tudo aquilo que parece nos atingir, não simplesmente de frente, mas principalmente com uma mente superior ao do problema. Afinal, tanto o problema quanto a cura, ambos existem dentro de si mesmo. Sendo assim, dependerá de si, se realmente quer curar-se ou curtir um pouco mais este estado instável de identidade que gera o sofrimento e leva por fim a inacção.

És um ‘Ser’, acima de tudo predestinado à iluminação, por isso, toda vez que remar contra ela, estará contrariando a sua natureza e isso acarretará sempre algum tipo de sofrimento.

Finalizando, também podemos dizer que a fé, no Sutra Lótus, tal como Buda o fez, é o melhor dos remédios, pois não só cura as doenças naturais, como principalmente cura também as nossas doenças cármicas. E por nos libertar dessa forma, nos transforma na causa de uma solução e não no agravante de um problema.

Monges Budistas compraram lagostas para libertar

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Monges Budistas compraram lagostas destinadas para consumo e libertaram-nas. Libertaram  cerca de 270 kg de lagostas de volta para o Oceano. Estes Monges Budistas que estão no Canadá devolveram as lagostas vivas contidas em oito caixas para o Mar, evitando o seu consumo. Os 270 kg de crustáceos foram libertados nas águas da costa da Ilha Príncipe Eduardo pelos monges do Instituto Budista da Grande Iluminação, em inglês, Great Enlightenment Buddhist Institute Society.

Um dos monges, de seu nome Dan afirmou: “Esperamos com esperança que o local tenha sido bem escolhido e que não apanhem armadilhas”. Os monges usaram um barco,  e perante a estupefacção dos pescadores,  libertaram uma a uma. A operação toda envolveu um montante de 4.800 dólares.  As lagostas ainda receberam oração e foram benzidas com água purificada.  O grupo budista afirma que não é intenção desta acção de apelar ao vegetarianismo, mas sim promover o respeito e cultivar a compaixão,  e afirmam: “sejam lagostas, gansos,  moscas,  qualquer animal… Há que ter cuidado e atenção,  como por exemplo, conduzir devagar para não atropelar animais na rua”

Budismo e a Orientação Sexual

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A homossexualidade é proibida no budismo? É uma conduta sexual errada? Vamos conferir o que Buda, o fundador da religião, disse.

Buda afirmou num dos cinco preceitos que os leigos deveriam evitar condutas sexuais erradas. Ele nunca elaborou muito sobre esse assunto, apenas disse que um homem não deveria envolver-se com uma mulher que está casada ou noiva.

Sem dúvida ele disse no Vinaya, as regras para monges e monjas, que eles devem fazer um voto de castidade, mas não há regra que enquadre quem não é monge.

O Buda ensinou os cinco preceitos para afastar de maneiras de causar danos para nós mesmos e para outros. Deve-se apontar aqui que esses são preceitos e não mandamentos, e que são cinco coisas das quais devemos tentar abstermo-noe.

Para que o acto sexual não cause danos, ele deve ser consensual, afectuoso, amoroso e não deve violar qualquer voto de casamento ou compromisso. Ele também não deve ser abusivo, como por exemplo, envolver sexo com menores ou violação, e nisso está incluído forçar o seu parceiro a fazer sexo.

Acredita-se, portanto, que um acto homossexual consensual e amoroso não vai contra os ensinamentos de Buda de nenhuma forma.

Em segundo lugar, deveríamos prestar atenção às palavras que Buda proferiu antes de morrer.

Na época o Venerável Ananda, seu amigo, estava chorando porque o Buda estava deixando o seu corpo, e ele disse ao Buda: “Está partindo e eu ainda não me tornei iluminado. O que será de mim? O que acontecerá comigo? O mundo será de trevas absolutas para mim – eras a luz. E agora está partindo. Tenha compaixão de nós.”

Buda abriu os seus olhos e disse “Appo deepo bhava”, o que significa “Seja a sua própria luz – não siga ninguém”.

Buda pediu que seguíssemos a nossa luz interior.

Fica claro portanto que não há nada errado com a homossexualidade se ela está dentro de nós e nós não causamos dano a outras pessoas ou a nós mesmos.

O Dalai Lama, mesmo celibatário, tem usado a sua considerável força moral para apoiar o casamento igualitário, condenando a homofobia e afirmando que o sexo gay e lésbico não é problema algum desde que seja consensual.

5 Mini-Histórias de Sabedoria

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Budismo vem da palavra “budhi”, que significa despertar. Por essa razão, a filosofia budista é considerada a filosofia do “processo de despertar”. Um processo pelo qual não apenas abrimos os olhos, como também o resto dos sentidos e o nosso intelecto, de uma forma plena através de diferentes formas.

Queremos encoraja-lo com estas cinco mini-histórias a deixar para trás a apatia, desenvolver uma maior compreensão e se transformar numa pessoa mais sábia. Esperamos que aprecie e que experimente a sabedoria que carregam.

A chávena de chá

“O professor chegou na casa de um mestre zen e apresentou-se, fazendo questão de envaidecer todos os títulos que havia alcançado ao longo dos seus vários anos de estudo. Depois, o professor comentou o motivo da sua visita, que não era outro senão conhecer os segredos da sabedoria zen. Em vez de lhe dar explicações, o mestre convidou-o a sentar-se e serviu-lhe uma chávena de chá. Quando o chá transbordou da chávena, o sábio, aparentemente distraído, continuou derramando a infusão de modo que o líquido espalhou-se pela mesa. O professor não deixou de evitar chamar a atenção: “A chávena está cheia, já não cabe mais chá”, avisou. O mestre deixou a chaleira de lado para afirmar: “És como esta chávena, chegaste cheio de opiniões e preconceitos. Salvo que a sua chávena esteja vazia, não poderá aprender mais nada.” A primeira destas cinco mini-histórias relacionadas com o Budismo ensina que estando a mente cheia de preconceitos é impossível aprender e considerar novas crenças. É preciso  “esvaziar-se” de velhos preconceitos e hábitos e estar aberto a novos ensinamentos.

O presente

“Buda estava transmitindo os seus ensinamentos para um grupo de discípulos quando um homem se aproximou e o insultou com a intenção de agredi-lo. Frente ao olhar dos presentes, Buda reagiu com absoluta tranquilidade, ficando quieto e em silêncio. Quando o homem foi embora, um dos discípulos – indignado com tal comportamento – perguntou a Buda por que havia deixado que aquele estranho o maltratasse dessa forma. Buda respondeu com serenidade:“Se eu dou-te de presente um cavalo mas não o aceitas, de quem é o cavalo? O aluno, depois de ponderar por um instante, respondeu: “Se a pessoa não o aceitar, continuaria sendo seu”. Buda concordou e explicou que, mesmo que algumas pessoas decidissem gastar o seu tempo presenteando insultos, sempre poderemos escolher se queremos aceitá-los ou não, como faríamos com qualquer outro presente. “Se pegares nesse insulto, estarás aceitando-o, e se não o aceitares, quem te insulta fica com o insulto na suas próprias mãos”.

Os monges budistas e a mulher formosa

“Dois monges budistas, um velho e outro jovem, passeavam fora do mosteiro perto de um riacho de água que havia inundado os arredores. Uma bela mulher aproximou-se dos monges e pediu-lhes  ajuda para atravessar o riacho. O jovem monge estava horrorizado perante a ideia de levá-la nos seus braços, mas o velho com total naturalidade pegou nela e levou do outro lado. Depois, os monges continuaram caminhando. O jovem não podia deixar de pensar no incidente e finalmente questionou:“Mestre! Sabe que juramos abstinência. Não nos permitem tocar uma mulher dessa forma. Como foi capaz de levar essa bela mulher nos seus braços, deixá-la colocar as mãos em redor do seu pescoço, o peito junto ao seu peito e levá-la através do riacho, dessa forma? O monge ancião respondeu: “Meu Filho, és tu que ainda a carregas contigo mesmo! ”

A terceira destas mini-histórias budistas ajuda-nos a entender que às vezes carregamos o passado com emoções de culpa ou ressentimento, e o tornamos mais pesado do que foi verdadeiramente. Aceitando que o incidente não é parte integral do nosso presente, podemos livrarmo-nos de um grande peso emocional.

Inteligência

“Uma tarde as pessoas viram uma anciã procurando alguma coisa na rua fora da sua casa. ‘O que aconteceu, o  que estás  à procurar?” perguntaram a ela. ‘Perdi a minha agulha’ – respondeu. Todos os presentes começaram a procurar a agulha com a anciã. Com o passar do tempo alguém comentou: “A rua é comprida e uma agulha é algo muito pequeno. Por que não nos diz exactamente onde caiu?” “Dentro da minha casa” – indicou a anciã. “Está maluca? Se a agulha caiu dentro da sua casa, por que está procurando-a aqui fora?– disseram. “Porque aqui tem luz, mas dentro da minha casa não”, disse ela.

A quarta mini-história budista lembra-nos que muitas vezes, por conforto, procuramos no exterior o que reside no nosso interior. Por que procuramos a felicidade fora de nós mesmos? Por acaso a perdemos ali?

Não somos os mesmos

“Ninguém desenvolveu a benevolência e a compaixão como Buda na sua época. Entre os seus primos estava o malvado Devadatta, que sentia sempre inveja do Mestre e estava sempre empenhado em deixá-lo numa situação menos boa, inclusive disposto a assassiná-lo. Um dia, Buda estava passeando tranquilamente quando o seu primo Devadatta mandou uma rocha pesada desde o cume de uma colina. A rocha caiu ao lado de Buda e Devadatta não conseguiu acabar com a sua vida. Buda, mesmo percebendo o que tinha acontecido, permaneceu imperturbável, nem sequer perdendo o sorriso. Dias depois, Buda cruzou-se com o seu primo e cumprimentou-o afectuosamente. Muito surpreendido, Devadatta perguntou: “Não estás zangado?” “Não, claro que não”, assegurou Buda. Sem sair do seu assombro, Devadatta continuou: “Porque?” E Buda respondeu: “Porque nem tu és mais aquele que lançou a rocha, nem eu sou mais aquele que estava ali quando foi arremessada”.