Dalai Lama: Seguidores devem decidir o próximo líder do Budismo Tibetano

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O líder budista tibetano Dalai Lama disse que depende dos seus seguidores para decidir se o seu título continuará existindo no futuro.

Durante uma visita à cidade de Tawang, no Nordeste da Índia — a segunda mais importante do Budismo Tibetano —, Dalai Lama negou qualquer conhecimento sobre o nascimento do seu sucessor. Quando questionado se o próximo Dalai Lama poderia ser mulher, ele disse que “isso também poderia acontecer”.

O substituto do líder espiritual de 81 anos tem sido motivo de controvérsia. Pequim insiste que o próximo Dalai Lama nascerá na China.

O actual ocupante do posto, porém, disse que cabe às pessoas decidir se a tradição deve ou não ser continuada.

O Dalai Lama esteve numa visita à cidade indiana apesar das objecções da China, que considera a região como uma área disputada.

O religioso e os seus seguidores vivem no exílio, no Norte da Índia, desde a sua fuga do Tibete, após uma tentativa fracassada contra o domínio chinês em 1959.

A China não reconhece o governo tibetano no exílio e não mantém qualquer diálogo com representantes do Dalai Lama desde 2010.

Após 58 anos, Dalai Lama reencontra Narem Chandra Das

Há quase 60 anos, o soldado Narem Chandra Das ajudou Dalai Lama a fugir do Tibete. Agora, os dois voltaram a encontrar-se, numa altura em que o líder espiritual tibetano visita – para desagrado de Pequim – as regiões na fronteira entre a Índia e a China.

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Há 58 anos, Naren Chandra Das, um guarda paramilitar indiano, tinha ordens para não falar com o jovem de óculos que escoltava perto de fronteira chinesa, numa missão secreta. Agora, os dois voltaram a encontrar-se numa cerimónia emotiva que lembrou a fuga do líder budista do Tibete, depois de uma insurreição fracassada contra as autoridades chinesas.

A cerimónia teve lugar no domingo, na cidade de Guwahati, no nordeste da Índia. Este encontro poderá causar danos nas relações diplomáticas entre a Índia e a China, uma vez que Pequim considera Dalai Lama um “separatista anti-China”. Além disso, o líder budista de 81 anos está a visitar zonas fronteiriças que a China considera seu território, nomeadamente Arunachal Pradesh.

No encontro, foi Dalai Lama quem tomou a palavra, cita o The Guardian. “Olhando para o seu rosto, agora percebo que também devo estar muito velho”, disse a Das, de 79 anos.

Quando os dois se abraçaram, Dalai Lama pareceu sussurrar algo a Naren Chandra Das. Quando confrontado com a questão, Das apenas disse “ele estava feliz por me ver”. O líder budista também confirmou que estava realmente contente por poder reunir-se com parte da equipa que lhe salvou a vida, segundo a BBC News.

Em Guwahati, Dalai Lama – que nega procurar a independência tibetana – recordou a recepção “calorosa” que teve na Índia após treze dias de viagem para escapar ao exército chinês, pelos Himalaias. “Os dias que precederam a minha chegada à Índia eram bastante tensos e a segurança era a única preocupação, mas eu experimentei a liberdade quando fui recebido calorosamente por pessoas e autoridades, e um novo capítulo foi iniciado na minha vida”, referiu.

A fuga de Dalai Lama, disfarçado de soldado chinês, deu-se em março de 1959. Saiu durante a noite do seu palácio em Lhasa. Atravessou as montanhas e o rio Brahmaputra, e chegou à fronteira com a Índia. Tinha então 23 anos. Há muito que se verificava um clima de tensão entre os tibetanos e o governo chinês, o que originou uma rebelião popular.

Durante o tempo de fuga, temia-se que o líder espiritual tibetano estivesse entre as 2.000 pessoas mortas pelos chineses. A Índia ofereceu-lhe asilo e uma base na cidade montanhosa de Dharamsala, onde estabeleceu um governo no exílio. Cerca de 80.000 refugiado tibetanos juntaram-se a Dalai Lama.

Por sua vez, a China afirma que a rebelião de 1959 esteve a cargo de proprietários de terras que queriam manter o domínio feudal e que a “libertação pacífica” da região montanhosa trouxe desenvolvimento e prosperidade.

O ministro chinês das Relações Externas reiterou a sua oposição à visita de Dalai Lama às regiões fronteiriças, dizendo que se opõe firmemente “ao apoio e facilitação de qualquer país para as atividades separatistas do 14º grupo anti-China de Dalai Lama”.

O facto de a Índia abrigar Dalai Lama foi um dos factores que conduziu à guerra entre os dois países, em 1962. É também frequente que as tropas chinesas realizem incursões pela fronteira, sendo que as áreas fronteiriças são também altamente militarizadas.

Contudo, os líderes indianos continuam a receber bem Dalai Lama. Narendra Modi, primeiro-ministro, tratou o líder budista como “um convidado de honra” e lançou o convite para um encontro, em dezembro, com o presidente indiano, o que foi condenado pela China. Para Dalai Lama, esta visita foi também “o relembrar da liberdade” que viveu em 1959.

A Índia e o Tibete partilham laços culturais e religiosos e Dalai Lama afirmou a soberania da Índia sobreArunachal Pradesh, região localizada no extremo nordeste da Índia e disputada pela China.

O Tibete continua sob controlo chinês e a posse de fotografias ou escritos de Dalai Lama é considerada ilegal.

10 equívocos comuns sobre o Budismo

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Se entrar num templo budista é provável que veja um comportamento que parece potenciar a idolatria (a adoração de ídolos). Devotos exibem reverência…
Se o tema do budismo é relativamente novo para si, então a sua mente estará talvez como uma ardósia limpa, sem ideias pré-existentes sobre os seus ensinamentos. Mas muito provavelmente supomos que tem pelo menos alguns preconceitos sobre os budistas, o Buda, ou as práticas budistas. São construções que foi possivelmente fazendo a partir de um comentário no noticiário noturno, de uma foto no jornal, do facebook ou de uma observação que ouviu enquanto assistia a um documentário sobre a Ásia. Embora as intenções dos média sejam geralmente boas,  estão, muitas vezes, distorcidas e repletas de ideias sobre o budismo, podendo não corresponder à sua essência.Tem sido notado que certos equívocos aparecem repetidamente em comentários e perguntas dos alunos. Eu consigo lembrar-me das ideias que eu tinha quando me iniciei no estudo do Budismo. Por exemplo, depois de ler um ou dois livros que enfatizavam a importância de eliminar a avidez/desejo se quiser alcançar o estado de Buda.

Seguidamente, apresentamos dez equívocos comuns sobre o budismo e que emergem regularmente naqueles que  são iniciantes (e às vezes até mesmo experientes) estudantes do budismo. Talvez encontre alguns que partilhe.

1. O Budismo é apenas para os Asiáticos

De facto, o budismo é originário da Índia, tendo posteriormente se espalhado, primeiro, ao vizinho Sri Lanka e depois a outros países Asiáticos. Todas as formas tradicionais do budismo (como Tibetano, Vietnamita, e o Budismo Japonês) são nativas da Ásia. A maioria das pessoas têm imagens mentais dos monges e monjas budistas como sendo decididamente asiáticas. Levando essa linha de raciocínio um pouco mais longe, algumas pessoas presumem que qualquer coisa relacionada com o budismo é apenas adequado para a “mentalidade oriental” (o que quer que isso signifique) e impróprio para os ocidentais.

No entanto, o budismo não pertence a nenhum continente, nação ou grupo étnico. Enquanto existir sofrimento sob a tirania das emoções negativas, hábitos destrutivos e pensamentos distorcidos, os ensinamentos budistas sobre mindfulness, sabedoria e compaixão podem oferecer métodos eficazes para alcançar a felicidade duradoura e paz de espírito.

Na verdade, milhões de homens e mulheres na Europa e as Américas têm adoptado o budismo como o seu caminho espiritual e começaram a adaptar os seus rituais e formas em função das suas necessidades. E uma grande parte dos mestres budistas no Ocidente actuais nasceram e cresceram no Ocidente. É claro que, nos Estados Unidos da América, muitos Americanos Asiáticos ainda praticam o budismo – mas agora muitos americanos de outras ‘raças’ e grupos étnicos o fazem também. Rapidamente o budismo está a tornar-se universal.

2. Para os budistas, o Buda é Deus

Porque as grandes religiões ocidentais são centradas num Deus, muitas pessoas, compreensivelmente, acham que os budistas consideram o Buda como o criador do mundo e o Ser Supremo que julga as nossas acções, distribuindo recompensas e punições, desempenhando um papel importante na determinação do nosso destino, e geralmente, tendo uma participação activa no modo como as nossas vidas se desenrolam.

Mas nenhum desses conceitos se aplica ao budismo. O Buda histórico foi um ser humano como todos os outros. Através do treino espiritual ele foi capaz de penetrar nas camadas mais profundas do apego, da cólera, da ignorância e do medo da sua própria mente e coração, e percebeu a origem do sofrimento, tendo também descoberto o caminho que conduz à cessação do sofrimento. Ele sentiu-se, então, movido a conduzir os outros a saírem do seu sofrimento auto-criado e passou muitos anos a partilhar os seus insights, ideias e métodos.

No entanto, existe, definitivamente, um aspecto devocional nas práticas budistas. As imagens de Buda são adoradas com ofertas, e algumas tradições do budismo reverenciam certos Budas e Bodhisattvas. Embora estes budistas não adorem estes Budas e Bodhisattvas exactamente da mesma maneira que os judeus e cristãos adoram Deus. Eles tratam estas figuras com uma grande devoção, mas além disso, eles acreditam que estes seres transcendentes podem, ocasionalmente, intervir na vida dos humanos, especialmente ajudando a capacitar transformação espiritual.

3. Os budistas são adoradores de ídolos

Se entrar num templo budista é provável que veja um comportamento que parece potenciar a idolatria (a adoração de ídolos). Devotos exibem reverência, com as suas palmas das mãos juntas na frente de um altar, decorado com flores, incenso e outras ofertas, caracterizando uma estátua do Buda (às vezes acompanhada de outras figuras estranhas). De repente, então, essas pessoas curvam-se, em alguns casos, estendendo os seus corpos no chão na direcção do altar. Embora esta cena – chamada de oferecer prostrações – pareça uma adoração a ídolos, uma imagem bem diferente emerge. Quando se curva ou conscientemente se exerce as prostrações (não como um ritual vazio), está a demonstrar humilhação do seu pseudo ego e honrar o ‘Buda’.

4. Porque os budistas acham que a vida é sofrimento, discutem muito o tema da morte

Este equívoco é particularmente um dos mais populares e mais persistentes sobre o budismo. Qual é a fundamentação para a sua existência? Afinal de contas, a primeira das Quatro Nobres Verdades, no coração dos ensinamentos do Buda, é conhecida como a verdade do sofrimento.

Este mal-entendido pode ser dissipado se, em grande medida, entendermos que o Buda, como um médico, não só diagnostica o sofrimento, como também ensina a cessação do sofrimento, bem como o caminho que leva a esta cessação. A compreensão da verdade do sofrimento meramente informa e motiva a seguir o caminho que conduz ao fim do sofrimento – a alegria indizível e a paz que nasce quando se alcança o despertar. Resumindo, os budistas não estão morbidamente fixados no sofrimento. Pelo contrário, os budistas estão preocupados, principalmente, com uma felicidade duradoura e no alcançar da liberdade que não depende das circunstâncias imprevisíveis da vida. Se precisa de prova, basta olhar para o rosto sorridente do Dalai Lama,  actualmente o budista mais proeminente no Ocidente.

5. Os budistas pensam que tudo é uma ilusão

Os ensinamentos budistas têm como objectivo eliminar todas as perspectivas falsas, enganosas e enviesadas acerca da realidade, porque essas visões constituem uma importante fonte de sofrimento.

Para expressar este ponto, certos textos budistas Mahayana, por exemplo, comparam o mundo das aparências (onde vive a maioria das pessoas) com um insubstancial sonho, miragem ou ilusão. Infelizmente, algumas pessoas interpretam erradamente esta metáfora para significar que nada existe realmente, que as coisas são apenas uma invenção da nossa imaginação, e não importa o que realmente faça porque nada faz sentido.

Mas o Budismo considera esta interpretação excessivamente negativa e um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento espiritual. As pessoas que caem sob a crença desta perspectiva estão em perigo de se comportar de forma imprudente e ignorando as leis de causa e efeito (“afinal, tudo é apenas uma ilusão”), criando apenas mais sofrimento para si e para os outros.

As coisas não são ilusões, as coisas são como ilusões. Elas parecem existir de uma determinada forma, mas, de facto, existem de uma outra forma. Por exemplo, numa ilusão de óptica uma linha pode parecer maior do que outra linha, mas na realidade ser mais curta. Da mesma forma, a realidade pode parecer ser uma colecção de objectos materiais sólidos e separados. Na verdade, porém, são um fluxo em constante mutação, em que tudo está inter-relacionado e nada está  separado ou é independente, como parece ser. A nível relativo, no quotidiano, as coisas existem. Caso contrário, como poderíamos ter escrito este artigo, e como poderia estar a lê-lo?

Este engano estará presente até que remova os véus dos distorções que obscurecem a sua sabedoria, e até lá não pode perceber a realidade directamente, da forma como ela é realmente.

6. Os budistas não acreditam em nada

Este equívoco está intimamente relacionado com o que se referiu no item “os budistas pensam que tudo é uma ilusão”.
Para entender os aspectos profundos das quatro nobres verdades, a principal doutrina do budismo, é fundamental compreender o que é conhecido como as ‘duas verdades’. ‘As ‘duas verdades’ referem-se à perspectiva filosófica budista fundamental que considera que existem dois níveis de realidade. Um é o nível empírico, fenomenal e relativo àquilo que nos parece ser, onde funções como causas e condições, nomes e rótulos, e assim por diante podem ser validamente compreendidos. O outro é um profundo nível de existência, para além do primeiro, o qual os filósofos budistas descrevem como o fundamental, ou final, a natureza da realidade, e que muitas vezes é tecnicamente referido como “vazio”. A realidade absoluta não manifesta – Shunyata, Paramatman, Tao, Natureza de Buda, etc. – é a base suprema de toda a realidade. O seu alcance é experimentado como Nirvana ou libertação ou auto-realização. O oposto deste estado é o mundo dos fenómenos, Maya, a verdade relativa, Ilusão, Samsara, “a roda do renascimento”, sujeito à ignorância (avidya) da sua verdadeira natureza, o desejo, a infelicidade, e assim por diante.

Os budistas acreditam na vacuidade – ou, mais precisamente, procuram experimentar a vacuidade – mas isso não significa que eles não acreditem em nada. Adoptar uma rejeição tão extrema de tudo é uma grande armadilha no caminho espiritual.

Ao investigar a natureza última da realidade, os pensadores budistas tomaram as palavras do Buda, não tanto como uma autoridade suprema, mas sim como pistas para ajudar o seu próprio insight, pois a autoridade última deve sempre residir na própria razão do indivíduo e da sua análise crítica. É por isso que encontramos várias concepções de realidade na literatura budista. Cada uma é baseada num nível diferente de entendimento da natureza última.

7. Somente os budistas podem praticar o budismo

Algumas pessoas que se deparam com o Budismo através de um livro ou de um professor descobrem que os seus ensinamentos ajudam a dar sentido à sua vida. Mas elas refream-se de os praticar, porque pensam que têm que se tornar budistas – e elas realmente não querem ir tão longe. Talvez essas pessoas já pertencem a uma outra tradição religiosa e não se sentem confortáveis com a ideia de abandoná-la. Ou talvez elas ainda não queiram identificar-se com qualquer movimento particular ou “ismo”. Se é uma dessas pessoas, ouça os ensinamentos budistas e seguia-os, se quiser, mas permaneça fiel à sua própria tradição. Afinal, cada religião tem as suas próprias qualidades e valores notáveis.

Se considera que certos ensinamentos budistas são particularmente interessantes, simplesmente, coloque-os em prática, tanto quanto puder. O facto é que muitos cristãos e judeus nos dias de hoje, incluindo ministros bem conhecidos, rabinos e sacerdotes, praticam formas de meditação budistas, porque eles acham que as técnicas e os ensinamentos apoiam e aprofundam a sua compreensão e apreciação da sua própria tradição. Vários católicos praticantes foram reconhecidos como mestres zen! Se feita ‘correctamente’, a meditação budista pode torná-lo ainda melhor seguidor de sua própria religião – ou um ateu melhor, se é isso que deseja.

8. Os budistas estão apenas interessados em contemplar os seus umbigos

Sem dúvida que, o budismo coloca uma grande ênfase na introspecção silenciosa. Direccionar a sua atenção para dentro e domar a sua mente selvagem e fragmentada, sugerem os ensinamentos. Muitas pessoas, até mesmo os budistas experientes, interpretam que isso significa que eles têm de virar as costas para o mundo exterior e se concentrar exclusivamente na sua prática. Mas esta imagem é apenas parte da realidade.

Em certas tradições do Budismo Mahayana, o Bodhisattva compassivo é considerado como o modelo final. O problema é que não se pode esperar ajudar os outros de uma forma eficaz se ainda se está preso nas suas próprias emoções negativas e padrões habituais, tais como a ignorância, ganância, inveja, raiva e medo. Então, se quer ajudar os outros ou apenas ajudar-se a si mesmo, precisa de iniciar com o mesmo procedimento: dirigir-se para o seu interior através da meditação e outras práticas e trabalhar com a sua própria mente e coração. Eventualmente, se a sua motivação altruísta é forte, naturalmente, irá partilhar a sabedoria e compaixão que foi cultivando com as pessoas ao seu redor.

Nas últimas décadas, alguns budistas criaram movimentos de acção social. Estes são conhecidos pelo termo geral de ‘Budismo Engajado (socialmente)’. Se quiser exemplos de mestres budistas proeminentes comprometidos com a acção social, não precisa de procurar muito. Dois bons exemplos – Thich Nhat Hanh, que foi indicado para o Prémio Nobel da Paz em 1968 pelo seu activismo em prol da paz durante a Guerra do Vietname, e o Dalai Lama, que foi premiado com o prémio em 1989 pelo seu trabalho incansável em nome do povo tibetano.

9. Os budistas nunca ficam com raiva

A prática da meditação pode ser entendida a partir de vários pontos de vista diferentes. De acordo com alguns professores na tradição Zen, por exemplo, a ideia de que medita para conseguir alguma coisa limita a sua prática e leva-o para longe do momento presente. De acordo com o ponto de vista que as tradições Theravada e Vajrayana partilham, no entanto, as pessoas envolvem-se na meditação por uma variedade de razões, uma das mais importantes é a de superar obstáculos internos, como o ódio e a raiva. Os budistas, por isso, tem a reputação de ser calmos, mesmo moderados, e imperturbáveis quando confrontados com a adversidade. Muitas pessoas, mesmo alguns budistas, consideram s monges e as freiras como sendo especialmente incapazes de ter raiva.

Mas tenha em mente que simplesmente tornar-se um budista, ou colocar as vestes de um monge ou freira não significa que de repente quebra todos os hábitos destrutivos de uma vida (ou, como diriam os budistas, de incontáveis vidas). O desenvolvimento espiritual leva tempo, e se espera mudanças dramáticas simplesmente porque adoptou uma nova religião ou decidiu usar roupas diferentes é uma visão irrealista.

Se é sincero nas suas práticas budistas pode começar a observar algumas mudanças num período relativamente curto de tempo – digamos, seis meses ou um ano. Pode ainda ficar com raiva, mas talvez não fica com raiva tão frequentemente ou tão violentamente ou por tanto tempo. Se notar esses sinais positivos de mudança, pode alegrar-se com eles. Eventualmente, existe a possibilidade de descobrir que as situações que costumavam causar-lhe perturbação agora apenas aumentam a sua compreensão, amor e tolerância. Isso é quando sabe que está realmente a fazer progressos.

Finalmente, é preciso mencionar que se finge estar calmo e tranquilo, enquanto está a ‘ferver por dentro com raiva’ não é definitivamente uma prática budista recomendada. Nem é, claro, uma prática recomendável descarregar a sua raiva nos outros. O primeiro passo é reconhecer que está com raiva; o próximo passo é trabalhar com a sua raiva, usando uma das várias práticas budistas que podem ajudar a suavizá-la e, finalmente, a neutralizá-la. Se necessário, pode expressar a sua raiva de uma forma clara e responsável. Mas se apenas a pretender abafá-la é como tentar parar uma panela de água a ferver pressionando firmemente na sua tampa: mais cedo ou mais tarde o panela vai explodir!

10. “É apenas o meu Carma; Não há nada que possa fazer com ele”

O termo carma surge muitas vezes nas conversa casuais do dia-a-dia, e diferentes pessoas têm diferentes ideias sobre o que significa. Para algumas pessoas, karma parece ser imprevisível – algum tipo de sorte. Para outros, o termo significa destino, e a sua atitude perante a vida, portanto, tende a ser bastante fatalista: “É o meu carma de me enervar facilmente”, eles podem dizer. “Esta é apenas a forma como eu sou; O que posso fazer?”

O budismo vê o carma (que significa literalmente ‘acção’) simultaneamente como mais previsível e mais dinâmico do que as perspectivas da palavra que se acabou de descrever. O relevante a reter é que cada um de nós se engaja continuamente em acções agora e que conduzirão a resultados cármicos no futuro, e cada um nós experimenta continuamente os resultados cármicos agora de acções que criou no passado. Por outras palavras, o seu carma não é um destino fixo, imutável que deve aceitar passivamente, como se fosse único e imutável, que o universo reservou para si. Em vez disso, a sua situação cármica muda constantemente, dependendo de como agir, falar e pensar no momento presente. Ao alterar o seu comportamento e transformar a sua mente e o seu coração através da prática budista, pode definitivamente transformar a qualidade da sua vida (e a vida das pessoas mais próximas).

Fonte: spm-be.pt

A Meditação na Escola

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No quadro negro da escola portuguesa há uma palavra escrita em maiúsculas: INFELICIDADE. Rezam recentes relatórios que variadas razões concorrem para o desconforto da geração de infantes, marcados por desvios, débitos e insucessos: do bullying ao assédio sexual, da violência verbal, e não só, entre géneros, à desobediência face ao docente, da bulimia à privação do sono e do alimento, dislexias, défices de atenção e hiperatividade, esta tão generosamente distribuída pelo país jovem. Nesta síndrome, os números são de estarrecer: 5 milhões de doses diárias de “ritalina” tomadas pelas crianças portuguesas até aos 15 anos, que vai domando perturbações comportamentais, deixando no quarto escuro não menos ameaçadores projetos de “zombies” em larga escala…

E contudo… – retomando o suposto murmúrio de Galileu ante os seus juízes – há alternativas possíveis, testáveis, ao menos, para prover um apaziguamento deste torvelinho de relações e atitudes desviantes em ambiente de ensino. Uma prática, ou exercício, se quisermos – meditação na escola – vem ganhando força e forma em países europeus e fora do Velho Continente, em comunidades do “primeiro mundo” em matéria pedagógica.

A meditação na escola vem sendo praticada nos EUA e Canadá e, desde 2012, está instaurada oficialmente na Bélgica, Países Baixos e Suécia, países na linha da frente desta terapia. Na Grã-Bretanha e França, em escolas de Aixe-en-Provence e Pas-de-Calais, ensaiaram-se igualmente os primeiros passos. Os benefícios parecem evidentes e indiscutíveis, com a sustentação científica das ciências cognitivas e pedagógicas. A sensibilidade anglo-saxónica e nórdica assume-se mais aberta a estas alternativas terapêuticas: nos EUA, a meditação é aplicada em centenas de hospitais na gestão do stress e nos cuidados paliativos do cancro terminal. Este é outro domínio que muito nos alongaria.

Sem equívocos, a meditação de que se fala é uma estratégia de laicidade, e não uma caricatura de pseudo-New Age, tal como se exige a um qualquer Estado secular, algo que não é despiciendo e tem motivado algum debate em França, berço da racionalidade. Uma questão sensível revê-se na escolha da pauta de recursos, a dirimir entre as esferas pública e privada. Na pátria de Voltaire, neurocientistas, médicos e pedagogos concordam nesta tese, acima das opções: a meditação favorece a atenção da criança e promove o seu bem-estar. A meditação laica – ou plena consciência (mindfulness), proposto nos anos de 1970 pelo psicólogo Jon Kabat-Zinn, do prestigiado MIT – poderá ser mais do que uma moda passageira, concorrendo em paralelo com o desenvolvimento da psicologia positiva e a recuperação do pensamento simbólico de C. J. Jung.

Desta via nos apercebemos em 2001, quando da presença entre nós de Mathieu Ricard, biólogo molecular e monge budista, conselheiro do Dalai Lama, e que tivemos a grata oportunidade de convidar para o programa científico do “Porto, Capital Europeia da Cultura”. Já então o citado investigador tivera ocasião de divulgar alguns dados científicos sobre os benefícios da meditação, sem sombra de pretensão em matéria de proselitismo religioso. Um estudo da Universidade de Harvard, de 2005, revelava alterações do córtex cerebral pré-frontal esquerdo – a região implicada nos processos cognitivos, emocionais e do bem-estar – nos indivíduos praticantes da meditação plena.

Sabe-se bem da mundividência do ioga enquanto componente destas práticas, mas não se requer neste cenário uma linha teórica unívoca. Sobrarão variantes e novas soluções geridas em função da diversidade dos problemas em sala de aula e dos sujeitos em causa.

Adquiridos são os efeitos sobre a atenção, a concentração e, por outro lado, nas relações interpessoais – apaziguamento, diminuição da violência – introduzindo a calma e diminuindo a tensão. E saber que tudo pode começar a mudar pela respiração, básico suporte da vida…

Autor: Joaquim Fernandes – Historiador

Uma conversa entre John Oliver e o Dalai Lama

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É o líder espiritual do Tibete e, ao mesmo tempo, “um demónio para a China”. Entre risos e gargalhadas, o Dalai Lama respondeu a perguntas sensíveis numa entrevista concedida ao apresentador – e comediante – do “Last Week Tonight”, John Oliver no início deste mês.

Como já é costume, o programa da HBO fez o público rir. Desta vez, John Oliver conseguiu também arrancar gargalhadas do 14º Dalai Lama, perseguido pela China e exilado na Índia desde 1959. Foi para lá que o apresentador norte-americano viajou, para uma conversa animada com a figura máxima viva do budismo tibetano e a quem chamou de “popesident”, pelo facto de ser o chefe espiritual e, ao mesmo tempo, líder político do Tibete no exílio.

A entrevista começou, como não podia deixar de ser, com o comediante a fazer rir o líder espiritual, quando se cumprimentaram em tibetano: “A minha pronuncia é boa? Em minha defesa, só comecei a aprender tibetano há 40 segundos atrás”. Mas mesmo com gargalhadas, ficou o espaço para as afirmações mais sérias. Falou-se da opressão chinesa ao Tibete, das centenas de monges que se imolaram nos últimos anos e da possibilidade de Tenzin Gyatso (o seu nome verdadeiro) ser o último Dalai Lama.

“Acredita que pode ser o último Dalai Lama?”, perguntou o apresentador. O líder, surpreendentemente, respondeu: “sim, é possível”. Mas, quando foi questionado sobre a possibilidade de Pequim escolher o seu próprio Dalai Lama, rematou: “O nosso cérebro geralmente tem a capacidade para perceber o senso comum. Mas, aos dirigentes chineses parece que lhes falta essa parte do cérebro”.

“Eu sou um demónio com cornos”, uma referência ao facto de líderes e cidadãos chineses o terem chamado várias vezes de demónio na imprensa internacional.

É sabido que a relação entre a China e o líder espiritual do Tibete não é fácil.

Quando se olha para muitas das notícias em que ambos são protagonistas, a tensão é clara. Por exemplo: em junho de 2016, o ministro dos negócios estrangeiros chinês lançava um comunicado em que bania todos os conteúdos relacionados com Lady Gaga. O motivo? Poucos dias atrás, a artista tinha-se se encontrado com o Dalai Lama. A partir daquele momento, a cantora figurava numa lista negra, por onde já passaram artistas como Katy Perry ou os Backstreet Boys.

“Estou feliz por estar aqui e criticar a China consigo. Até porque as consequências para mim não são tão graves como são para si”, brincou o comediante. Contudo, entre risos, o Dalai Lama não deixou barato e respondeu: “agora também é um demónio como eu”.

Em protesto contra a opressão chinesa sobre a região, perto de 150 tibetanos imolaram-se desde 2009. São imagens que nos últimos anos têm chocado os espectadores, mas que não têm sido suficiente para fazer com que a China mude a forma de actuação sobre o Tibete.

Sobre isso, o líder espiritual responde: “se eu disser que é errado, então a família de quem se imolou vai pensar que o seu parente fez algo com que o Dalai Lama não concorda”. “Do ponto de vista budista, não é certo, mas o mais correcto é o meu silêncio”, acrescentou.

Afirmações mais sérias da parte do “popesident” que foram amenizadas com as suas próprias gargalhadas e com as piadas que o apresentador da HBO ia lançando. De tal forma que a entrevista não terminou sem um momento caricato: se há décadas atrás o presidente norte-americano Franklin Roosevelt ofereceu um relógio ao Dalai Lama, John Oliver presenteou-o com algo mais moderno: uma calculadora de pulso, que, como disse o apresentador, é “tão moderno quanto seria nos anos 80”.

Fonte: Sapo24

10 Livros Budistas que todos devem ler.

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After the Ecstasy, the Laundry. – Depois do êxtase, lave a roupa suja 

Por Jack Kornfield (Bantam, 2000) De acordo com Jack Kornfield, a iluminação existe e é mesmo bastante comum. A questão é que depois de alcançá-lo, tarefas do dia-a-dia e problemas ainda esperam por si. Este é um guia para traduzir os nossos despertares espirituais em nossas vidas imperfeitas

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A Beginner’s Guide to Meditation – Guia de Principiante para a Meditação  

Por Rod Meade Sperry e os editores de Lion’s Roar (Shambhala, 2014) Conselhos e inspiração dos mais renomados professores do budismo, incluindo nomes como Pema Chödrön, Thich Nhat Hanh, Dalai Lama, Norman Fischer, Judy Lief e muitos mais.

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Being Peace – Para Viver Em Paz 

Por Thich Nhat Hanh (Parallax, 1987) Aborda tanto o despertar pessoal como o envolvimento compassivo no mundo. Usando anedotas da sua própria vida, bem como poemas e fábulas, Thich Nhat Hanh ensina as suas práticas-chave para morar no momento presente.

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Cutting Through Spiritual Materialism – Além do Materialismo Espiritual

Por Chögyam Trungpa (Shambhala, 1973) Com base na visão mais elevada da escola Vajrayana, ela define princípios básicos não só do budismo, mas também da prática espiritual. Sempre contemporâneo e relevante, uma influência profunda sobre como o budismo é entendido hoje.

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Happiness Is an Inside Job – A Felicidade é um trabalho interior.

Por Sylvia Boorstein (Ballantine, 2007) Com o seu calor humano característico, Sylvia Boorstein ensina como praticar a atenção, concentração e esforço correctos nos leva longe da raiva, da ansiedade e da confusão, e para a calma, a clareza e a alegria.

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Mindfulness in Plain English – A Meditação da Plena Atenção

Por Bhante Gunaratana (Sabedoria, 1992) Aperfeiçoamento para qualquer um interessado na atenção plena, budista ou não. Este clássico da tradição Theravada explica o que a atenção plena é e não é, como praticá-la e como trabalhar com distrações e outros obstáculos.

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Real Happiness – Verdadeira Felicidade

Por Sharon Salzberg (Workman, 2010) Usando quase nenhum termo budista-específico, este livro pequeno útil, bate todas as notas direitas quando vem a como fazer a meditação básica e as práticas relacionadas que podem nos ajudar cultivar mais bondade, ligação , e contentamento nas nossas vidas diárias.

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What Makes You Not a Buddhist- O que não faz de ti um Budista 

Por Dzongsar Jamyang Khyentse (Shambhala, 2008) Uma delineação precisa dos princípios fundamentais que definem o budismo, versus o que é supérfluo, meramente cultural, ou não budista em tudo. Um bom livro para ler se está decidindo se é ou não um budista, ou apenas se quer saber o que o budismo realmente é.

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When Things Fall Apart – Quando tudo se desfaz

Por Pema Chödrön (Shambhala, 1997) Se está enfrentando um momento desafiador na vida, este é o livro que quer. Ele mostra como desenvolver bondade amorosa para consigo mesmo e depois cultivar uma atitude destemidamente compassiva em relação à sua própria dor e a dos outros.

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Zen Mind, Beginner’s Mind – Mente Zen, Mente Principiante 

Por Shunryu Suzuki (Weatherhill, 1973, 40 edição de aniversário, 2013, Shambhala)

Apesar de cobrir os princípios zen como zazen postura, curvatura, intenção, e assim por diante, obra-prima Suzuki Roshi é dificilmente apenas para o povo zen-ou apenas para iniciantes, para esse assunto. Ele habilmente introduz importantes conceitos budistas como não-apego, vazio e iluminação.

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Fonte: Liosnroar

 

5 Práticas para cultivar a Felicidade

Cannes - 'Buddha' Photocall

O grande Professor Budista Thich Nhat Hanh sofreu um acidente vascular cerebral grave em novembro de 2014. Nós nos juntamos a praticantes em todo o mundo ao enviar nossas orações e bons desejos para sua recuperação contínua. A vida de Thich Nhat Hanh é inspiradora, o seu grande benefício e seu ensino, como o próprio dharma, profundo e prático.

Todos nós queremos ser felizes e há muitos livros e professores no mundo que tentam ajudar as pessoas a serem mais felizes. No entanto, todos nós continuamos a sofrer. Portanto, podemos pensar que estamos “fazendo algo errado”. De alguma forma estamos “falhando na felicidade”. Isso não é verdade. Ser capaz de desfrutar da felicidade não exige que tenhamos zero sofrimento. Na verdade, a arte da felicidade é também a arte de sofrer bem. Quando aprendemos a reconhecer, abraçar e compreender o nosso sofrimento, sofremos muito menos. Não só isso, mas também podemos ir mais longe e transformar o nosso sofrimento em compreensão, compaixão e alegria para nós mesmos e para os outros.

Uma das coisas mais difíceis para aceitar é que não há reino onde há apenas felicidade e não há sofrimento. Isso não significa que devamos desesperar. O sofrimento pode ser transformado. Assim que abrimos a boca para dizer “sofrimento”, sabemos que o oposto do sofrimento já está lá também. Onde há sofrimento, há felicidade.

De acordo com a história da criação no livro bíblico do Genesis, Deus disse: “Que haja luz”. Eu gosto de imaginar que a luz respondeu, dizendo: “Deus, eu tenho que esperar que o meu irmão gêmeo, a escuridão, esteja comigo . Eu não posso estar lá sem a escuridão. “Deus perguntou:” Por que precisa esperar? A escuridão está lá. “Luz respondeu,” Nesse caso, então eu também já estou lá. ”

“Uma das coisas mais difíceis para aceitar é que não há reino onde há apenas felicidade e não há sofrimento. Isso não significa que devamos desesperar. O sofrimento pode ser transformado.”

Se nos concentramos exclusivamente na busca da felicidade, podemos considerar o sofrimento como algo a ser ignorado ou resistido. Pensamos nisso como algo que entra no caminho da felicidade. Mas a arte da felicidade é também a arte de saber sofrer bem. Se sabemos usar o nosso sofrimento, podemos transformá-lo e sofrer muito menos. Saber como sofrer bem é essencial para a realização da verdadeira felicidade.

Medicina de cura

A principal aflição da nossa civilização moderna é que não sabemos como lidar com o sofrimento dentro de nós e tentamos encobri-lo com todos os tipos de consumo. As lojas vendem uma infinidade de dispositivos para nos ajudar a encobrir o sofrimento interior. Mas a menos que e até que possamos enfrentar o nosso sofrimento, não podemos estar presentes e disponíveis para a vida, e a felicidade continuará a nos iludir.

Há muitas pessoas que têm um sofrimento enorme, e não sabem como lidar com isso. Para muitas pessoas, ela começa numa idade muito jovem. Então porque é que as escolas não ensinam aos nossos jovens, a maneira de gerir o sofrimento? Se um estudante é muito infeliz, ele não pode concentrar-se e ele não pode aprender. O sofrimento de cada um de nós afeta os outros. Quanto mais aprendemos sobre a arte de sofrer bem, menos sofrimento haverá no mundo.

Mindfulness é a melhor maneira de estar com o nosso sofrimento sem ser oprimido por ele. Mindfulness é a capacidade de habitar no momento presente, para saber o que está acontecendo no aqui e agora. Por exemplo, quando estamos levantando os nossos dois braços, estamos conscientes do facto de que estamos levantando os nossos braços. A nossa mente está com o nosso levantamento dos braços, e não pensamos no passado ou no futuro, porque levantar os nossos braços é o que está acontecendo no momento presente.

Ser consciente significa estar ciente. É a energia que sabe o que está acontecendo no momento presente. Levantar os nossos braços e saber que estamos levantando os nossos braços – que é a atenção plena, atenção da nossa acção. Quando respiramos e sabemos que estamos respirando, isso é atenção plena. Quando damos um passo e sabemos que os passos estão ocorrendo, estamos atentos aos passos. Mindfulness é sempre mindfulness de algo. É a energia que nos ajuda a estar conscientes do que está acontecendo agora e aqui mesmo – em nosso corpo, em nossos sentimentos, nas nossas percepções e em torno de nós.

“Com a atenção plena, não temos mais medo da dor. Podemos até ir mais longe e fazer bom uso do sofrimento para gerar a energia de compreensão e compaixão que nos cura e podemos ajudar os outros a curar e ser feliz também.”

Com atenção plena, pode reconhecer a presença do sofrimento em si e no mundo. E é com a mesma energia que abraça ternamente o sofrimento. Ao estar ciente da sua inspiração e expiração, gera a energia da atenção plena, para que possa continuar a suportar o sofrimento. Os praticantes da atenção plena podem ajudar-se mutuamente a reconhecer, abraçar e transformar o sofrimento. Com a atenção plena, não temos mais medo da dor. Podemos até ir mais longe e fazer bom uso do sofrimento para gerar a energia de compreensão e compaixão que nos cura e podemos ajudar os outros a curar e ser feliz também.

Gerando Mindfulness

A maneira como começamos a produzir a medicina da atenção plena é parar e tomar uma respiração consciente, dando a nossa completa atenção à nossa inspiração e à nossa expiração. Quando paramos e tomamos fôlego desta maneira, unimos corpo e mente e voltamos para casa para nós mesmos. Sentimos os nossos corpos mais plenamente. Estamos verdadeiramente vivos somente quando a mente está com o corpo. A grande notícia é que a unicidade do corpo e da mente pode ser realizada apenas por uma inspiração. Talvez não tenhamos sido gentis o suficiente para o nosso corpo por algum tempo. Reconhecendo a tensão, a dor, o stress no nosso corpo, podemos banhá-lo na nossa consciência consciente, e esse é o início da cura.

Porque que é que o Buda continuou a meditar?

Quando eu era um jovem monge, eu perguntava-me por que é que  Buda continuava praticando a atenção plena e a meditação mesmo depois que ele já se tornara um Buda. Agora eu acho que a resposta é bastante clara para ver. A felicidade é impermanente, como tudo o resto. Para que a felicidade seja estendida e renovada, tem que aprender a alimentar a sua felicidade. Nada pode sobreviver sem comida, incluindo felicidade; a sua felicidade pode morrer se não souber como alimentá-la. Se cortar uma flor, mas vnão colocá-lo em alguma água, a flor vai murchar em poucas horas.

“Podemos condicionar os nossos corpos e mentes à felicidade com as cinco práticas de deixar ir, convidando sementes positivas, atenção plena, concentração e percepção.”

Mesmo que a felicidade já esteja manifestando-se, temos de continuar a alimentá-la. Isso às vezes é chamado de condicionamento, e é muito importante. Podemos condicionar os nossos corpos e as mentes à felicidade com as cinco práticas de deixar ir, convidando sementes positivas, atenção plena, concentração e percepção.

1. DEIXANDO IR

O primeiro método de criar alegria e felicidade é abandonar, deixar para trás. Há uma espécie de alegria que vem do deixar ir. Muitos de nós estão ligados a tantas coisas. Acreditamos que essas coisas são necessárias para a nossa sobrevivência, a nossa segurança e a nossa felicidade. Mas muitas dessas coisas – ou mais precisamente, as nossas crenças sobre a sua necessidade absoluta – são realmente obstáculos para a nossa alegria e felicidade. Às vezes acha que ter uma certa carreira, diploma, salário, casa ou parceiro é crucial para a sua felicidade. Acha que não pode continuar sem ela. Mesmo quando atingiu essa situação, ou está com essa pessoa, continua a sofrer. Ao mesmo tempo, ainda tem medo de que, se deixar ir o prémio que atingiu, será ainda pior; será ainda mais miserável sem o objecto que se está apegando. Não pode viver com isso, e não pode viver sem ele. Se vier a olhar profundamente no seu apego terrível, vai perceber que ele é de facto o obstáculo para a sua alegria e felicidade. Possui a capacidade de deixá-lo ir. Deixar ir precisa de muita coragem às vezes. Mas uma vez que deixar ir, a felicidade vem muito rapidamente. Não terá que ir em redor procurando por ele. Imagine que é um habitante da cidade tendo uma viagem de fim de semana para o campo. Se mora numa grande metrópole, há muito barulho, poeira, poluição e odores, mas também muitas oportunidades e emoção. Um dia, um amigo convence-o a fugir por alguns dias. No começo pode dizer: “Eu não posso. Eu tenho muito trabalho. Talvez eu perca uma chamada importante. Mas finalmente ele convence a sair, e uma hora ou duas mais tarde, encontra-se no campo. Vê o espaço aberto. Vê o céu, sente a brisa nas suas bochechas. A felicidade nasce do facto de que poderia deixar a cidade para trás. Senão tivesse partido, como poderia experimentar este tipo de alegria? Precisava de deixar ir.

2. CONVIDADO AS  SEMENTES POSITIVAS

Cada um de nós tem muitos tipos de “sementes” que se encontram profundamente e nossa consciência. Aqueles que água são os que brotam, vêm na nossa consciência, e manifestar-se externamente. Assim, na nossa própria consciência há o inferno, e há também o paraíso. Somos capazes de ter compaixão, sermos compreensivos e alegres. Se prestarmos atenção apenas às coisas negativas em nós, especialmente ao sofrimento de dores passadas, estamos chafurdando nas nossas dores e não recebendo qualquer alimento positivo. Podemos praticar a atenção adequada, regando as qualidades saudáveis em nós, tocando as coisas positivas que estão sempre disponíveis dentro e em torno de nós. Isso é bom alimento para a nossa mente. Uma maneira de cuidar do nosso sofrimento é convidar uma semente da natureza oposta a surgir. Como  se nada existe sem o seu oposto, se tem uma semente de arrogância, também tem uma semente de compaixão. Cada um de nós tem uma semente de compaixão. Se praticar a atenção plena de compaixão todos os dias, a semente de compaixão se tornará forte.  Precisa apenas concentrar-se nele e ele virá para cima como uma poderosa zona de energia. Naturalmente, quando a compaixão surge, a arrogância desce. Não tem que lutar ou empurrá-lo para baixo. Podemos selectivamente regar as sementes boas e abster-se de regar as sementes negativas. Isso não significa que ignoremos o nosso sofrimento; Apenas significa que nós permitimos que as sementes positivas que estão naturalmente lá para obter atenção e nutrição.

3. Alegria

A atenção plena ajuda-nos não só a entrar em contacto com o sofrimento, para que possamos abraçá-lo e transformá-lo, mas também tocar as maravilhas da vida, incluindo o nosso próprio corpo. Então respirar torna-se uma delícia, e expirar também pode ser uma delícia. Realmente vem para desfrutar da sua respiração. Há alguns anos, eu tinha um vírus nos pulmões que os faziam sangrar. Eu estava cuspindo sangue. Com pulmões como aquele, era difícil respirar, e era difícil ser feliz enquanto respirava. Após o tratamento, os meus pulmões curaram e a minha respiração tornou-se muito melhor. Agora, quando eu respiro, tudo que eu preciso fazer é lembrar o tempo quando os meus pulmões foram infectados com este vírus. Em seguida, cada respiração que eu tomar torna-se realmente delicioso, muito bom. Quando praticamos a respiração consciente ou a caminhada consciente, trazemos a nossa mente para casa para o nosso corpo e estamos estabelecidos no aqui e no agora. Nós sentimo-nos tão sortudos; Temos tantas condições de felicidade que já estão disponíveis. Alegria e felicidade vêm imediatamente. Portanto, a atenção plena é uma fonte de alegria. Mindfulness é uma fonte de felicidade. Mindfulness é uma energia que podes gerar durante todo o dia através da sua prática. Pode lavar os seus pratos em mindfulness. pode cozinhar o seu jantar em mindfulness. Pode esfregar o chão em mindfulness. E com atenção pode tocar as muitas condições de felicidade e alegria que já estão disponíveis. É um verdadeiro artista. Sabe como criar alegria e felicidade sempre que quiser. Esta é a alegria e a felicidade nascidas da atenção plena.

4. CONCENTRAÇÃO

A concentração nasce da atenção plena. A concentração tem o poder de romper, de queimar as aflições que o fazem sofrer e de permitir que a alegria e a felicidade entrem. Permanecer no momento actual exige concentração. Preocupações e ansiedade sobre o futuro estão sempre lá, pronto para nos levar embora. Podemos vê-los, reconhecê-los e usar a nossa concentração para retornar ao momento presente. Quando temos concentração, temos muita energia. Não nos deixamos levar por visões de sofrimentos passados ou medos sobre o futuro. Moramos estavelmente no momento presente para que possamos entrar em contacto com as maravilhas da vida e gerar alegria e felicidade. Concentração é sempre concentração em algo. Se concentrar-se na sua respiração de uma forma relaxada, já está cultivando uma força interior. Quando volta para sentir a sua respiração, concentre-se ns sua respiração com todo o seu coração e mente. A concentração não é trabalho duro. Não tem que esticar-se ou fazer um esforço enorme. A felicidade surge de forma leve e fácil.

5. INTROSPECÇÃO

Com a atenção plena, reconhecemos a tensão no nosso corpo, e queremos muito libertá-la, mas às vezes não podemos. O que precisamos é de alguma percepção. Introspecção é ver o que está lá. É a clareza que pode libertar-nos de aflições como ciúme ou raiva, e permitir que a verdadeira felicidade venha. Cada um de nós tem a percepção, embora nem sempre façamos uso dela para aumentar a nossa felicidade.

“A essência da nossa prática pode ser descrita como transformar o sofrimento em felicidade. Não é uma prática complicada, mas exige que cultivemos a atenção plena, a concentração e a percepção.”

Podemos saber, por exemplo, que algo (um desejo ou rancor) é um obstáculo para a nossa felicidade, que nos traz ansiedade e medo. Sabemos que essa coisa não vale o sono que estamos perdendo. Mas ainda assim nós continuamos gastando o nosso tempo e energia obcecados com isso. Nós somos como um peixe que foi apanhado uma vez antes e sabe que há um gancho dentro da isca; Se o peixe faz uso dessa visão, ele não vai morder, porque ele sabe que vai ser apanhado pelo gancho. Muitas vezes, nós apenas mordemos o nosso desejo ou rancor, e deixe o gancho nos levar. Ficamos apanhados e presos a essas situações que não são dignas da nossa preocupação. Se a atenção plena e a concentração estiverem lá, então a percepção estará lá e nós podemos fazer uso dela para nadar, livremente.

Na primavera, quando há muito pólen no ar, alguns de nós têm dificuldade em respirar devido a alergias. Mesmo quando não estamos tentando correr cinco quilómetros e só queremos sentar ou deitar, não podemos respirar muito bem. Assim, no inverno, quando não há pólen, em vez de reclamar do frio, podemos recordar de como em abril ou maio não conseguimos sair. Agora os nossos pulmões são claros, podemos dar um passeio rápido para fora e podemos respirar muito bem. Nós conscientemente chamamos a nossa experiência do passado para ajudar-nos a estimar as coisas boas que estamos tendo agora. No passado, provavelmente, sofremos de uma coisa ou outra. Pode até ter sentido como uma espécie de inferno. Se nos lembrarmos de que o sofrimento, não nos deixando levar por ele, podemos usá-lo para nos lembrar: “Que sorte eu tenho agora. Eu não estou nessa situação. Eu posso ser feliz “- isso é introspecção; E nesse momento, a nossa alegria e a nossa felicidade podem crescer muito rapidamente.

A essência da nossa prática pode ser descrita como transformar o sofrimento em felicidade. Não é uma prática complicada, mas exige que cultivemos a atenção plena, a concentração e a percepção. Exige, antes de tudo, que voltemos para nós mesmos, que façamos a paz com o nosso sofrimento, tratando-a com ternura e examinando profundamente as raízes da nossa dor. Exige que deixemos de ir em sofrimentos inúteis e desnecessários e que demos uma olhada na nossa ideia de felicidade. Finalmente, exige que nutramos a felicidade diariamente, com reconhecimento, compreensão e compaixão por nós mesmos e por aqueles que nos rodeiam. Oferecemos essas práticas a nós mesmos, aos nossos entes queridos e à comunidade em geral. Esta é a arte do sofrimento e a arte da felicidade. Com cada respiração, aliviamos o sofrimento e geramos alegria. Com cada passo, a flor da introspecção floresce.

Do livro: :No Mud, No Lotus: The Art of Transforming Suffering”, por Thich Nhat Hanh. © 2014 da United Buddhist Church. Publicação propriedade da Parallax Press. www.parallax.org.

 

 

 

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